19 novembro 2009

A escrever


Estou aqui escrevendo nesse exato momento. Agora. A ação assim, se desenrolando. E amanhã talvez esteja escrevendo de novo. E no outro dia. Ontem mesmo eu estava escrevendo.

Sempre gostei do gerúndio. É muito mais processual dizer que vou estar falando do que vou falar. Com o gerúndio você me imagina no meio de algo, e imagina o começo, o fim, enfim, a coisa toda ACONTECENDO. Mas os processos foram malditos para sempre, como o Paulo Coelho e a expressão "a nível de". Lembra do "A nível de"? Era chiquérrimo, e todos começaram a falar que a nível disso, a nível daquilo. E o exagero trouxe a maldição. A expressão foi banida, coberta de vergonha: A nível de, não!! Os franceses nem ligam, e colocam tudo "au niveau de" alguma coisa, sem trauma nenhum, e sem ficar inventando que nível é o da água, etc, que foi uma das explicações que eu ouvi para o banimento do pobre nivel de. Do Paulo Coelho eu desconfio: também não consigo mais gostar dele. Gostei do Alquimista, como todo mundo daquela época (não adianta você dizer que você não gostou. Eu estava lá e vi você gostando. E naquela época ainda podia gostar do Paulo Coelho!....ou Coelhô, como dizem os entusiásticos leitores dele na França e em Quebec. Como diria um outro amigo, o tradutor do Coelhô deve ser um arraso de bom...afinal, não se pode gostar dele. Não no original!)

Hmmmm....por falar em perseguição, acho que os portugueses estão envolvidos nesta história. Afinal, eles vão lá, nos descobrem, nos ensinam a língua deles, e a gente já começa a inventar? Que ingratidão é essa? Por pura vingança, eles estariam a disseminar o ódio contra o gerúndio, esse tempo que eles praticamente não estiveram a usar, não estão a usar e não pretendem estar a usar muito....nós que estaríamos a abusar!

Abuso foi a causa dessa implicância coletiva contra o gerúndio. Ele parecia chique, prestigioso, e caiu na vala comum das formas e expressões que repetimos à exaustão, até esvaziar totalmente de sentido. E se continuamos intransigentes, jogando o bebê fora junto com a água do banho (expressão que eu sempre achei horrível, mas cabe direitinho aqui) vamos estar a falar assim....sem ele. Anistia ao gerúndio (ainda que não ampla e irrestrita): continuemos falando, escrevendo, inventando, no presente, no passado, e no futuro.

Afinal, a nível de riqueza linguística, quanto mais formas, mais nossa fala vai enriquecendo...

12 comentários:

Glenda N. disse...

GISAAAAAAAAA! Adoro ler as coisas que tu escreve!

Unknown disse...

E eu estou adorando (rs) ter mais um lugar pra escrever!

Guilherme Santos disse...

Então,

Vou estar comentando este post.

Muito bom o texto, só não concordo 100% com o final.

"Afinal, a nível de riqueza linguística, quanto mais formas, mais nossa fala vai enriquecendo..."

Por que isso nos leva a formas a nível de "internetês" que empobrecem a língua, eu sei que o "vossa mercê", evoluiu sucessivamente a "vossemecê", "vosmecê" e finalmente "você", mas "vc" e "V6" (para plural), são uma afronta a nossa língua. E isso tudo sem entrar no mérito da maldição da "Prolixidade" tão praticada atualmente graças ao nosso excesso de possibilidades de dizer a mesma coisa. Tu já viu algum inglês prolixo? até existem, mas são raros.

Então, que enriqueçam a fala, mas de forma ordenada e coordenada.

Unknown disse...

Guilherme, por alguma razão misteriosa, eu adoro esse assunto!

Sim, até o internetês é perdoado no meu universo. Como você observou bem, o importante é SABER usar, e se o mesmo sujeito que escreve "v6" no chat escrever "vocês" na carta que acompanha seu CV para pedir um emprego, tudo vai bem.

Você já leu "O Gigolô das Palavras"? Foi esse texto que me transformou numa lingüista....é muito bom! E explica de forma muito mais divertida isso que eu estou dizendo (embora a preocupação dele seja o "acerto")

Prolixidade é um horror. Não é porque seu armário é repleto que você vai colocar 8 roupas uma em cima da outra....

Unknown disse...

(E que ninguém implique com a minha trema! Até o dia 31 de dezembro eu posso usar!!!)

Guilherme Santos disse...

Eu também gosto muito desse assunto.

Meu medo é justamente com o "SABER usar", pra nós, que vimos o internetês surgir e até tivemos, de certa forma, que acompanhá-lo, é simples fazer essa distinção. Mas e quem está sendo praticamente alfabetizado nessa "língua"? será que vai ter esse discernimento? é só ver que até em alguns blogues "sérios" (e eu já vi um deslize numa SuperInteressante desse ano) essa linha fica cada dia mais tênue.

Sejamos otimistas....hehehe

E aproveitando a tua trema, a Reforma Ortográfica me parece um bom exemplo do que eu citei como um enriquecimento coordenado e ordenado, mesmo que seja retirando alguma coisa.

Guilherme Santos disse...

Ainda no assunto.

Li de novo, agora, "O gigolô das palavras".

E tenho que concordar com tudo que tá escrito ali....hehehe

Guilherme Santos disse...

Isso me lembrou o clássico texto:

Papos

— Me disseram...
— Disseram-me.
— Hein?
— O correto e “disseram-me”. Não “me disseram”.
— Eu falo como quero. E te digo mais...Ou é “digo-te”?
— O quê?
— Digo-te que você...
— O “te” e o “você” não combinam.
— Lhe digo?
— Também não. O que você ia me dizer?
— Que você está sendo grosseiro, pedante e chato. E que eu vou te partir a cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara. Como é que se diz?
— Partir-te a cara.
— Pois é. Parti-la hei de, se você não parar de me corrigir. Ou corrigir-me.
— É para o seu bem.
— Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como bem entender. Mas uma correção e eu...
— O quê?
— O mato.
— Que mato?
— Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar-lhe-ei-te. Ouviu bem?
— Pois esqueça-o e para-te. Pronome no lugar certo é elitismo!
— Se você prefere falar errado...
— Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou entenderem-me?
— No caso... não sei.
— Ah, não sabe? Não o sabes? Sabes-lo não?
— Esquece.
— Não. Como “esquece”? Você prefere falar errado? E o certo é “esquece” ou “esqueça”? Ilumine-me. Me diga. Ensines-lo-me, vamos.
— Depende.
— Depende. Perfeito. Não o sabes. Ensinar-me-lo-ias se o soubesses, mas não sabes-o.
— Está bem, está bem. Desculpe. Fale como quiser.
— Agradeço-lhe a permissão para falar errado que mas dás. Mas não posso mais dizer-lo-te o que dizer-te-ia.
— Por quê?
— Porque, com todo este papo, esqueci-lo.

Tem um pouco de prolixidade nesse também.

Glenda N. disse...

Mas que bate papo é esse!

Jairfran disse...

"minha trema"? Com o sinal diacrítico eu não vou implicar (pelo menos até 2012), mas implico com esse feminino...
Quanto ao gerúndio, nenhuma pessoa sensata pensou em bani-lo ou amaldiçoá-lo. O problema é usá-lo sem estar querendo evidenciar realmente um processo.

Jairfran disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

Se fôssemos seguir esta lógica, ainda estaríamos falando latim vulgar, que foi a origem de todas as línguas românicas. Não, pera....estaríamos falando o que veio antes...em qual recorte de tempo estaria esta língua que merece ser preservada? Voltei pro Brasil depois de 22 anos e não encontrei o subjuntivo depois do talvez...me deu a maior tristeza, era tão lindo! Mas as pessoas não usam mais, e a língua é anárquica, ela se transforma mesmo que a gente se rebele.