20 maio 2009

Texto 01


Texto 01

NEGÓCIO DE RISCO 

O Nestor era um daqueles conquistadores inveterados. Daqueles capazes de fazer qualquer coisa para se envolver com qualquer mulher, seja ela mulata, branca, nova, velha, bela ou quarta-feira de cinzas. O fato é que para Nestor não tinha tempo ruim: bastava um belo par de pernas ou, na maioria das vezes, apenas um par de pernas, para que os seus hormônios entrassem em ebulição.

Em uma noite quente de outubro Nestor conheceu Simone, uma daquelas mulheres que dão sentido completo à existência do gênero masculino no planeta. Simone tinha todos os adjetivos que um homem sonha em ver acompanhando um objeto feminino, seja ele direto ou indireto: seios fartos, bunda arredondada, coxas grossas e um sorriso de siga-me-agora-mesmo. Para Nestor, aquela mulher não era um simples pedaço de mau caminho. Era uma transamazônica inteira, aí incluído todos os seus superfaturamentos.

Sentados em um daqueles botecos frequentados por toalhas quadriculadas e moscas alcoolatras, Nestor e Simone conversavam alegremente. Bolero vai, bebida vem, e a conversa avançou um pouco mais. Uns 30 centímetros, mais ou menos, ou o suficiente para que eles se beijassem.

Como o clima esquentava mais e mais, Nestor não teve dúvidas. Ele convidou Simone para ir até a sua casa, usando uma de suas táticas preferidas para impressionar mulheres: o uso de palavras incomuns e de metáforas inesperadas. Ou vice-versa.

Ele olhou para ela com um sorriso no canto da boca e lançou:

- E então, meu pequeno tesouro. Gostaria de ir até Wall Street conhecer o meu pregão?

Simone, que além de bonita era extremamente espirituosa, piscou o olho para Nestor e sorriu. Nestor levantou, pendurou com envergonhada discrição a conta com o dono do bar e seguiu a formosa dama porta afora.

Corta para os lençóis do Nestor.

Ele cabisbaixo, sem o menor sinal daquele sorriso galante, procurava uma explicação para a baixa inesperada das suas ações. Simone tentava injetar um pouco de liquidez no produto interno bruto dele, mas nada melhorava o otimismo do seu boêmio investidor. Nestor tentou contornar a situação, através da especulação da sua sempre eficiente oratória.

- Morena, não existem indicadores que expliquem essa descapitalização. Acho que deu um circuit braker, devido ao pânico generalizado. Mas ó, fique tranquila que logo, logo, eu recupero as perdas e realizo os lucros.

Para espanto do Nestor, Simone emendou logo em seguida:

- Você que pensa! Eu devia saber que homem do tipo subprime só poderia fazer minha noite terminar numa grande depressão. Me dê minhas roupas aí que eu vou atrás de um homem renda fixa, que é bem mais seguro.

Da janela da sua casa, Nestor viu as curvas da Simone cruzar a frente do mercado e sumir nas curvas do bairro.

- Maldito capitalismo. – Foram as últimas palavras que ele balbuciou antes de dormir.

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