20 maio 2009

Texto 03

Um trocadinho, por favor! 

Em uma via pública movimentada de uma grande cidade; um senhor esquálido, enrolado em trapos, balança incessantemente uma caneca de metal com algumas moedas, repetindo mecanicamente em tom de penúria: “Um trocadinho, por favor! ... Um trocadinho, por favor!...”

Um rapaz distinto, trajando um terno alinhado, sapatos finos e portando uma reluzente maleta de couro, ao observar o sofrimento daquele homem, resolve ir até ele.

- Há quanto tempo você vive na rua, meu senhor?

- Eu não vivo na rua, eu trabalho aqui neste ponto!

- Trabalha?! Como assim, trabalha?! O senhor não é um mendigo?

- Mendigo, não! Eu sou um Profissional da Mendicância.

- Então o senhor é um mendigo profissional?

- Eu prefiro que o senhor utilize a nomenclatura correta “Profissional da Mendicância”, foi uma das conquistas da nossa categoria no último dissídio. 

A nossa profissão é legalmente regulamentada, e nossa função já foi reconhecida como de utilidade pública.

- Utilidade pública?

- Sim, utilidade pública! Se o senhor não sabe, as religiões crescem a cada dia e cada vez é maior o número de pessoas que se arrependem de tudo que fizeram; logo, para provarem o verdadeiro arrependimento e alcançarem a salvação, essas pessoas precisam fazer caridade. E para que isso ocorra é necessário que haja profissionais da mendicância habilitados e devidamente treinados para receber as caridades. O que seria dessas pessoas se nossa categoria não existisse para garantir a remissão dos seus pecados... Lembre-se, meu caro: a fé sem obras é morta! 

Você certamente tem uma profissão, um emprego e não gostaria que eu menosprezasse a sua categoria profissional.

O rapaz fixou, por alguns segundos, seu olhar no mendigo. Havia nele um ar de indignação, que aos poucos foi se tornando angústia e, finalmente, tristeza. Abaixou a cabeça e murmurou envergonhado:

- Eu não tenho uma profissão, nem um emprego.

Mas, pela sua aparência... eu diria que é um funcionário muito bem remunerado de uma grande empresa multinacional.

- Há alguns meses, você estaria certo. Estas roupas são do tempo em que eu fui gerente executivo de uma grande empresa, mas com esta crise econômica eles demitiram muitos funcionários e acabaram com a filial onde eu trabalhava. Com a indenização que eu recebi, tentei trabalhar por conta própria no transporte alternativo, mas tive meu veículo apreendido pela fiscalização e não tive dinheiro para retirá-lo do depósito público. 

Depois que eu fiquei desempregado, me envolvi com jogo, álcool, drogas, fui abandonado pela minha família... Aconteceu na minha vida tudo de ruim que você possa imaginar. 

- Olhando pra esta tua pasta tão cheia, eu poderia jurar que estava abarrotada de dólares e documentos importante...

- Que nada! Eu vim aqui fazer uma entrevista pra trabalhar vendendo plano de saúde. Como a seleção vai ser o dia inteiro, e eu não tenho dinheiro para almoçar, trouxe uma marmita.

O rapaz, abrindo a pasta, retira dela uma marmita enrolada em um encardido pano de prato com detalhes natalinos. O mendigo o repreende imediatamente.

- Por favor, guarda essa marmita aí! É constrangedor te ver numa situação dessa, rapaz. Marmita de alumínio, isso nem se usa mais! A mendigada aqui toda come num restaurante ali que aceita o nosso vale-refeição.

Você chegou mesmo ao fundo do poço, hein! Tem que sair dessa, cara! Reage!

- Eu não sei o que faço da minha vida! – O rapaz, agora aos prantos, senta-se ao lado do mendigo.

-Eu vou te dar um voto de confiança, meu rapaz! – Exclama o mendigo, levantando-se procurando algo no bolso traseiro da calça.

Ele retira um celular e faz uma ligação. Uma pessoa atende:

- Organizações “Um Trocadinho, Por Favor!”, bom dia! Em que posso ajudar?

- Dona Sônia?

- Pois não, doutor Paulo.

- Dona Sônia, eu estou com um rapaz aqui, o nome dele é...

O homem, ainda tentando acomodar cuidadosamente a marmita no interior da pasta, responde:

- Roberto.

- O nome dele é Sr. Roberto. Eu estou mandando ele dar uma passadinha aí e preencher uma ficha pra trabalhar com a gente. A senhora, por favor, prepara a documentação dele e vê se inclui ele no nosso programa de treinee ainda esta semana.

- Pois não, doutor Paulo.

- Dona Sônia, prepara pra mim um relatório do faturamento da nossa equipe que fica embaixo do viaduto de Madureira. Ah! e remarca pra amanhã aquela reunião com o pessoal do convênio da sopa e do corte de cabelo.

- Amanhã não dá, Doutor Paulo. Pra amanhã, já está agendada a visita aos nossos fornecedores de solvente e cola-de-sapateiro.

- É mesmo! E a gente não pode furar com esses caras! Então eu passo aí no escritório no final da tarde.

- Pois não, Doutor Paulo.

O mendigo desliga o telefone e adverte:

- Olha bem, rapaz, eu estou te dando a oportunidade da tua vida. Fiquei muito emocionado com sua situação, pois meu bisavô teve uma história de vida muito parecida com a sua. Ele era um grande investidor na década de vinte e perdeu tudo com a crise de vinte e nove. Passou por muitas dificuldades, até dar início ao empreendimento que hoje é administrado pela nossa família. Já é a quarta geração da família ocupando a presidência do grupo empresarial e eu tenho muito orgulho da nossa história. 

Não vá me decepcionar, garoto! Tome o meu cartão e leve sua documentação toda neste endereço, amanhã, às 9h. 

Gostei muito de você, rapaz, e vou tentar te colocar em um dos nossos melhores setores: Porta de Igreja.

O rapaz beija a mão do mendigo e sai esperançoso com a nova oportunidade:

- Muito obrigado! Eu juro que não vou te decepcionar! Obrigado, obrigado...

Nenhum comentário: