- Alô, Dona Cleonice Barbosa ?
Não poderia ser coisa boa pra citarem seu nome inteiro. Pensou em desligar "acidentalmente" ou responder que era engano... não poderia ser operador de telemarketing pra oferecer cartão de crédito, já que seu nome estava negativado na praça. Lembrou-se do cupom promocional que havia preenchido em um supermercado na semana anterior e
, na esperança, resolveu responder.
- Ela mesma.
- Meu nome é Tatiana Oliveira
, da Intercob Assessoria de Cobranças, tudo bom?
Pensou em reclamar da vida, dizer que não tava nada bom, mas a tal Tatiana não lhe deu tempo de responder a pergunta feita apenas por praxe.
- O motivo de nosso contato é a respeito das pendências da Senhora na Financeira CredPop. A financeira terceirizou os serviços de cobrança, e estamos encarregados de renegociar as pendências.
Ah! Sim, agora ela começava a entender, pendências significavam dívidas.
- Constam em nossos cadastros atrasos superiores a sessenta dias...nessas condições a empresa oferece 50% de desconto no valor do juros em pagamento a vista conforme nossa tabela de rebate.
Rebate???? Que seria isso agora, estariam partindo pra violência?
- A outra opção seria a renegociação com parcelamento em 48 meses à taxa de 5,33% ao mês.
Ela calou. Fez-se silêncio. Provavelmente esperava uma resposta.
- Não posso pagar a vista e nem irei parcelar.
Agora era o outro lado que estava silente. A mocinha deveria estar procurando em seus protocolos uma resposta pronta que a convencesse.
- Dona Cleonice , deixa eu explicar pra Senhora...
Ela falava pausadamente agora.
- Nice.
- Como?
- Nice, me chama de Nice. Deixa eu te contar uma coisa, meu marido, quer dizer , ele não é meu marido de papel, né? Mas, como se chama?... temos uma união estável. Como eu ia dizendo, meu marido acaba de ser mandado embora da empresa onde trabalhava. Ele era montador numa fábrica da Volvo... pois bem, minha filha, ele foi um dos trinta e cinco mil trabalhadores de montadora que foram demitidos no mundo por conta desta crise...
- Entendo Dona Cleonice, digo, Dona Nice, mas não seria o caso...
- Os economistas ficam dizendo na televisão que vai melhorar em 2011... e até lá? O que a gente faz, hem? Atendo dezenas de ligações como a sua por dia, e a culpa é de quem? Sua ? Minha? Vou lhe dizer de quem é a culpa ...de quem empresta. Por que inventaram o tal do carnezinho? Por que empurram tanto cartão de crédito pra gente e consignam todo nosso salário com empréstimos?
- Entendo Dona Nice, mas...
- Vendem uma geladeira de mil reais , a gente acaba pagando dois mil... e agora, que não consigo pagar, se for vendê-la pra quitar minha dívida, arranjo o quê? Uns quinhentos reais talvez? E minha dívida continua de mil e quinhentos... isso mesmo minha filha ... problema de liquidez. Acontece nos estrangeiros e acontece aqui também...
Agora era o outro lado que estava silente. A mocinha deveria estar procurando em seus protocolos uma resposta pronta que a convencesse.
- Dona Cleonice , deixa eu explicar pra Senhora...
Ela falava pausadamente agora.
- Nice.
- Como?
- Nice, me chama de Nice. Deixa eu te contar uma coisa, meu marido, quer dizer , ele não é meu marido de papel, né? Mas, como se chama?... temos uma união estável. Como eu ia dizendo, meu marido acaba de ser mandado embora da empresa onde trabalhava. Ele era montador numa fábrica da Volvo... pois bem, minha filha, ele foi um dos trinta e cinco mil trabalhadores de montadora que foram demitidos no mundo por conta desta crise...
- Entendo Dona Cleonice, digo, Dona Nice, mas não seria o caso...
- Os economistas ficam dizendo na televisão que vai melhorar em 2011... e até lá? O que a gente faz, hem? Atendo dezenas de ligações como a sua por dia, e a culpa é de quem? Sua ? Minha? Vou lhe dizer de quem é a culpa ...de quem empresta. Por que inventaram o tal do carnezinho? Por que empurram tanto cartão de crédito pra gente e consignam todo nosso salário com empréstimos?
- Entendo Dona Nice, mas...
- Vendem uma geladeira de mil reais , a gente acaba pagando dois mil... e agora, que não consigo pagar, se for vendê-la pra quitar minha dívida, arranjo o quê? Uns quinhentos reais talvez? E minha dívida continua de mil e quinhentos... isso mesmo minha filha ... problema de liquidez. Acontece nos estrangeiros e acontece aqui também...
- A senhora tem razão, Dona Nice...
- No seu escritório trabalham muitas mulheres?
- Como? Não entendi...
- No seu trabalho tem muitas mulheres?
- Sim , a maioria.
- Sou manicure, passa meu número pra elas, que a gente combina...vou até aí , faço no horário de almoço...sabe como é né?...a gente tem que se virar. Eu tinha umas freguesas fixas mais a maioria teve que cortar os supérfluos por causa da crise. Filha, vou ter que desligar , meu ônibus chegou no ponto do supermercado.
Quase passa do ponto conversando ao telefone, depois de encarar quarenta minutos num ônibus lotado, atravessar metade da cidade, finalmente chegara. Diziam ser um dos últimos supermercados que ainda tinha ovos de páscoa; apesar da mídia divulgar a produção recorde e a movimentação nas contratações temporárias, o produto já começava a faltar nas prateleiras .Teria que ser rápida, afinal eram quatorze ovos de páscoa, filhos, sobrinhos , afilhados... As pessoas saíam do supermercado carregadas de sacolas coloridas e felizes... Enquanto apertava o passo Nice pensava: " Depois o povo reclama da crise!".
- No seu escritório trabalham muitas mulheres?
- Como? Não entendi...
- No seu trabalho tem muitas mulheres?
- Sim , a maioria.
- Sou manicure, passa meu número pra elas, que a gente combina...vou até aí , faço no horário de almoço...sabe como é né?...a gente tem que se virar. Eu tinha umas freguesas fixas mais a maioria teve que cortar os supérfluos por causa da crise. Filha, vou ter que desligar , meu ônibus chegou no ponto do supermercado.
Quase passa do ponto conversando ao telefone, depois de encarar quarenta minutos num ônibus lotado, atravessar metade da cidade, finalmente chegara. Diziam ser um dos últimos supermercados que ainda tinha ovos de páscoa; apesar da mídia divulgar a produção recorde e a movimentação nas contratações temporárias, o produto já começava a faltar nas prateleiras .Teria que ser rápida, afinal eram quatorze ovos de páscoa, filhos, sobrinhos , afilhados... As pessoas saíam do supermercado carregadas de sacolas coloridas e felizes... Enquanto apertava o passo Nice pensava: " Depois o povo reclama da crise!".
Nenhum comentário:
Postar um comentário