
Gisela Pinheiro Lima (Gisa)
- Luis Fernando?
- Oi?
- Você não vem dormir?
- E alguém consegue dormir no meio da Copa do Mundo, Lúcia?
Ou será que eles se tratam por apelidos? A tese é dele mesmo: casamento sem apelidos não vinga. E eles estão casados desde a metade do século passado. Tudo indica que vai dar certo. Logo, eles têm apelidos! Só que ninguém sabe quais são. Eles são um casal discretíssimo. Já tentaram de tudo, de espiãs disfarçadas de faxineira a microfones dentro do strudel. Os microfones só fazem uns ruídos estranhos, algo como grwlrllrlslwrlll. Quanto às espiãs, tentam de todas as maneiras captar qualquer sinal de apelido, sem sucesso, e acabam mudando de profissão e escolhendo uma coisa mais fácil, como dublê de mulher-bala no circo de Porto Alegre. Mas todos sabem que eles têm apelidos. Nosso herói é, antes de tudo, um incorrigível coerente. Deve ser alguma coisa simples e afetuosa. Lu e Lu, por exemplo.
- Vem cá, Lu.
- Pera, Lu, que o jogo vai começar.
- Mas faltam 4 horas.
- Estou em concentração!
Em público, Lúcia e Luis. Na intimidade, Lu e Lu.
- Lu!
- Shhhhhhhhh...em público, não!
Depois, em casa:
- Vamos repassar. Lúcia e Luis na frente dos outros. Lu e Lu, só quando estivermos numa ilha deserta cercada por 17 crocodilos esfomeados.
- Ah, era assim? Pensei que fosse o contrário.
- Também, depois de 17 chops....você me chamou de Luluzinha!!
- Você devia se dar por feliz de eu não ter trazido a Glória para casa em vez de você. Ei, baixa esse rolo de macarrão!
Lu e Lu....óbvio demais. Os apelidos deles devem ter referências culturais em diálogo com o deconstrucionismo inerente ao discurso disfórico da sociedade contemporânea. Ou seja: não devem ser nada daquilo que a gente está pensando. Mô e Mora. Nonô e Lelé. Tutuzinho e Tutuzinha.
Talvez eles discutam esse assunto todas as noites, com silêncios permeados pelos apelidos que eles nunca conseguiram se atribuir, e fiquem juntos pela esperança de um dia acertar com um. Com efeito retroativo.
- Eu queria um dissílabo.
- Como?
- Todo grande jogador de futebol é dissílabo: Pelé. Vavá. Dida. Cafu.
- Ronaldinho tem quatro sílabas!
- Porque Rorrô não ia ficar bem. Pensando bem, ele é um duplo dissílabo! Tomara que ele pare de passar tanto essa bola e comece a fazer gols.
- Você não quer que eu te chame de Lulu, quer?
- Bom, Luis é dissílabo....
- Mas não é apelido. E depois, nossos apelidos teriam que ser tão secretos que íamos acabar esquecendo deles. A menos que fossem evidentes, como Luzão e Luzinha....argh.
Ok, ok. Eu também não consigo imaginar o Luis Fernando Verissimo sendo ridiculo. Afinal, ele é o nosso ídolo. Nunca saberemos quais são os apelidos deles. Mas ninguém pode nos impedir de ficar especulando...
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