Elson Barbosa
-Descobri outro dia que poivre significa pimenta.
- Sim. Au poivre, à pimenta.
- Legal, eu não sabia.
- Sim.
- Incrível como em francês até pimenta é algo chique.
- Acho que foi o Verissimo que escreveu que você pede o sal em francês e já se sente tentado a incluir a frase no seu currículo para entrar na Academia.
- Sim, foi o Verissimo.
- Gênio.
- Gênio, gênio.
- Steak au poivre... Curioso como os franceses, sempre reticentes à cultura anglo-saxã, mantiveram o steak em detrimento ao beuf.
- Fizeram mal. Beuf deve ser bem melhor. Sem contar que a palavra exige o bico na pronúncia, o que deve triplicar o preço do prato.
- Imagine beuf au poivre então, com o famoso "R" desmascarando os charlatães.
- Dizem que há mâitres tão ortodoxos que acionam a segurança caso a pronúncia do cliente não esteja perfeita.
- O que fazem muito bem.
- Eu particularmente não gosto muito de pimenta. Até faço algumas concessões, mas em geral evito.
- Já eu, de todas as minhas concessões ao poivre, sempre excluo os molhos americanos. Açúcar e pimenta em um mesmo molho não dá.
- O barbecue sauce? Vale como experimento. É um molho que, em tese, passaria despercebido. Estando no meio do inferno, cercado por nacos de costelas gigantes, o pequeno detalhe do barbecue sauce não faria diferença.
- Não misturo doce com salgado. Nem o canard à l'orange me desce. É o mesmo que misturar geléia de laranja a um bife.
- Misturar geléia ao bife perde na empáfia. No mise-en-scène. O que conta horrores na cozinha francesa.
- Mesmo assim, misturas são sempre arriscadas. Veja os restaurantes por-quilo, por exemplo.
- Restaurantes por-quilo deveriam ter inspetores acompanhando cada cliente, para evitar gafes. E ainda assim haveria clientes burlando a fiscalização escondendo uma banana embaixo da lasanha. Não servem como exemplo.
- Dizem que na França tentaram abrir alguns restaurantes por-quilo, mas foram fechados pelo governo por terem desrespeitado algumas leis tradicionais. Nem a tentativa de classificá-los como nouvelle cuisine convenceu. Houve até depredações.
- Não duvido. Conheço histórias de pessoas que jogaram ketchup em um croissant e foram deportadas do país.
- Existe ketchup na França? Isso sim deveria ser proibido.
- Bem, sempre há os fast-foods e seus crimes ideológicos.
- Soube de pessoas que misturam batata-frita com sorvete. É um desrespeito à séculos de tradição cuisinière. Uma negação à História.
- Batata com sorvete? Essa eu não conhecia.
- Uma atrocidade. Deve haver sérias conotações políticas nisso.
- Curioso... De que é esse seu milk-shake?
- Chocolate.
- Deixa eu ver... é, até que não é ruim.
- Por favor.
- É sério, prove.
- Desculpe. Tenho meus princípios.
- Não é ruim. Tanto que, se lançassem essa idéia em alguma convenção mundial de chefs e a servissem em um prato gigante permeado por cebolinhas e um brócolis de enfeite, seria um sucesso.
- Não comece.
- Des frites glacées.
- Eu sugeriria misturar o sorvete nesse seu hambúrguer, se já não estivesse coberto de ketchup.
- A combinação do doce com salgado ficou boa. Se bem que a minha batata está sem sal.
- Passe-moi le sel, s'il te plaît?
- O que é isso? Você está pedindo o sal?
- Sim. Pode me citar.
- O Verissimo estava certo, a frase é ótima.
- Também. Gênio.
- Gênio, gênio.
26 junho 2006
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