08 junho 2006

O QUASE (versão LFV)

Luís Augusto Marcelino da Silva



Ainda pior do que a convicção de que o Grêmio está com um time melhor do que o Inter e a incerteza de que nosso único atacante que presta presta mesmo é a desilusão de um quase time colorado que conquiste a Libertadores.



É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata quando nego uma feijoada suculenta à base de porcos selvagens virgens, que emana da panela um odor que corrói minha barriga, especialmente quando ela está fatigada pela dieta imposta pelo meu cardiologista. Aí eu digo: "eu quase comi aquela feijoada..."

Quem quase perdeu sua fortuna numa mesa de jogos, agradece a Deus (ou a qualquer outra entidade que abomine um bom carteado regado à cerveja); quem quase foi reprovado, volta à escola no ano seguinte prometendo que vai se dedicar pelo menos no primeiro bimestre; quem quase amou uma pizza gigante de escarola jamais amará um brotinho de muzzarela. E, às vezes penso, quantas oportunidades meus dedos não perderam de penetrar nos olhos castanhos claros da minha irmã mais velha que dedurava (desculpem o trocadilho) minhas sessões de auto-ajuda na suíte dos meus pais, acompanhado da Status com a Cristiane Torloni. Maldito medo! Seja no outono, na primavera, no verão ou no inverno.



Quando Sócrates de Exu baixa em mim, eu me pergunto: o que nos leva a tomar coca diet ao invés de uma cerveja gelada no barco do Amyr Klink? A resposta, suponho, está no desejo de se ter um corpinho sarado, esculpido com a mão dos deuses do Olimpo. Mas nada que uma carteira recheada não possa resolver. Todo mundo dá "bom dia" a um homem endinheirado. Dá bom dia e dá mais coisas... Com e sem sussurros.



Sinto-me covarde por não ser feliz. Queria ser como El Cid ou Lancelot, mas fica difícil empunhar a espada e lutar por dias melhores, especialmente quando a Receita Federal não corrige a tabela do IR. O meio termo é uma merda, concordo, e o mar não teria ondas se não houvesse oscilações. Melhor um tsunami me engolindo enquanto saboreio um abacaxi maduro.

O nada, como é de se supor, é nada. O que me inspira é a Luana Piovani e a Patrícia Poeta. As montanhas que fiquem onde estão, nos Andes, nos Alpes europeus... Há coisas que não se podem mudar, e a derrota prévia não pode fazer parte do dicionário do torcedor do Íbis. Melhor ter a certeza de que vai perder de 14 a 0 do que a incerteza de um 11 a 2.

Para os erros há acertos; para os fracassados, cerveja; para os amores impossíveis, casas de meretrício. De nada adianta um coração pulsante quando se leva um tiro de bala perdida bem no meio da cabeça.

Gaste mais horas atrás do balcão. Não deixe que o Lula se reeleja. Desconfie das promoções das operadoras de celular. Viva intensamente, porque depois que você morrer, você estará morto. E quase não haverá mais coisas a fazer.

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