26 junho 2006

Passamento

Andréa de Oliveira


LFV faleceu... Comoção. A nação parou. Foi divulgada uma nota num jornal de grande circulação informando o passamento de Luis Fernando Verissimo, conhecido escritor e sem dúvida alguma uma grande perda para a literatura do País.
Mas como? Onde? Quando? A nota não era muito esclarecedora. Os fãs do escritor não conseguiam acreditar na tragédia, alguns devido ao sentimento de perda e outros mais céticos, uns 17 no máximo, por não acreditarem totalmente em tudo que liam. Sem mencionar o fato de que notícias trágicas como essa, apesar de nem sempre serem verdadeiras, se espalham rapidamente. E esta, para não fugir à regra, rapidamente se espalhou e foi assim que começaram as especulações...
Ouviu-se dizer (quem falou foi a cunhada do tio da namorada de um dos vizinhos do escritor, mais precisamente do vizinho da frente) que o escritor morreu dormindo e parecia ainda estar dormindo. Porém, apresentava um estranho sorriso nos lábios... Há comentários de que ele teria esbarrado com a Luiza Brunet na saída de um restaurante na noite anterior, e que isso teria sido demais pro seu coração, já que ele não acreditava na existência da Luiza com a mesma intensidade que a Velhinha de Taubaté ainda acreditava nos políticos brasileiros. O resultado teria sido um enfarto. Fulminante. Ao menos essa hipótese explicaria o estranho sorriso!
Passara mal no meio da noite. Talvez tivesse sonhado com a Luiza, que agora sabia ser tão real quanto a dívida externa do país, e acabara emitindo grunhidos. Talvez um "ioinc, ioinc". Provavelmente D. Lucia ouvira e percebera que vinham do marido adormecido. Na certa, a partir deste momento, perdera o sono e ficara pensativa... Não, o marido não costumava emitir grunhidos, somente... bom, isso não vem ao caso!
A essa altura, alguém já levantava a hipótese de ele não ter morrido de causa natural. Teria sido assassinato? Ciúmes, provavelmente. Que coisa horrorosa! Crime passional. Os fãs se mobilizaram para procurar a polícia e pedir que abrissem uma investigação para melhor averiguar os fatos. Um deles teve uma idéia: e se fosse feita uma vaquinha para coletar uns trocados? Poderiam, assim, contratar um detetive. Daqueles particulares... Ele poderia concentrar total atenção nas investigações, e com certeza seria bem mais rápido que a polícia para elucidar o caso.
Antes do fim do dia, terminaram a coleta e apuraram o valor coletado. Não era muito. Sovinas! Se estivesse vivo, LFV saberia a verdade; que tinha muito mais fãs do que supunha a vã filosofia da vendagem dos livros.
E lá foram eles, precisavam verificar se algum detetive prestaria seus serviços a troco de um valor tão irrisório. Só conseguiram um. Mort, Ed mort, dizia a plaqueta (escrita com pincel atômico, em folha A4 branca e presa com fita adesiva na porta, a anterior havia sido roubada!). Ele aceitou o valor por motivos sentimentais, já que dizia-se fã de um cara tão criativo e inteligente quanto ele próprio, e também por causa da bela representante que enviaram. A representante ficou confusa ao ouvir os elogios que Ed fez, com os olhos fixos no profundo decote da moça, à profundidade dos textos escritos por LFV. Sem sombra de dúvida, aquela notícia o tinha abalado!
E a partir daí, as investigações tiveram início, mas não foram muito longe apesar do empenho do detetive. Logo no dia seguinte, o jornal trouxe uma nota. Errata. Jornais parecem adorar este termo. A nota mencionava uma ilustre visita à redação, antes das oito da manhã pra ser exato, Luis Fernando Verissimo teria comparecido em carne, osso e bom humor para afirmar que (Sim!) estava vivo, não obstante os rumores em contrário, e por isso havia ido pessoalmente desfazer o mal-entendido. O jornal, para se retratar, imediatamente procurou sua fonte segura responsável pelo alarde e tomou conhecimento do equívoco... Quem falecera na verdade fora um homônimo chamado Luiz Fernando Veríssimo, que, por coincidência, também era escritor... O jornal pedia desculpas pelo transtorno causado aos milhares de fãs. Mas entre os fãs, só se ouviam estes comentários:
_ Mas esse, não era aquele?...
_ Acho que sim, viu o z no Luiz e o acento no Veríssimo?
_ É... a morte é algo triste, mas não posso negar que estou me sentindo duplamente aliviado.
Não se culpe por isso, neste caso ela é quase triste...
_ Obrigado, já me sinto melhor.
E pra quem não entendeu...
Ninguém explica! Ninguém explica!

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