24 julho 2006

O filho de Ed Mort


Jair Francelino Ferreira


Meu nome é Mart. Ed Mart. Escritor. Esse é meu último trabalho: Ama-me com ternura, mas atire para matar. A história de um policial cético e durão e uma enfermeira ingênua e sonhadora que, entre explosões, tiroteios e perseguições alucinantes, se entregam a uma sublime e avassaladora paixão, enquanto enfrentam a máfia chinesa, a CIA e uma seita secreta de monges assassino, pra desvendar uma teia de corrupção e assassinatos envolvendo a disputa por uma relíquia sagrada, numa ilha paradisíaca do Caribe. Mart. Ed Mart. Estava escrito na capa. Mas borrou.
Era pra ser Mort. Ed Mort. Igual ao meu pai. Mas o rapaz do cartório devia estar prestando mais atenção ao decote da minha mãe. Não o culpo. Aprendi a gostar do meu nome. E sempre me dizem que combina comigo. Meu pai foi um grande detetive particular. Carioca típico. Um certo charme rústico. Sorria pro lado. Cínico, mas terno, segundo a minha mãe. Ela prestava serviços pro governo na área de eventos e recepção de autoridades. Os dois se conheceram quando meu pai foi contratado pra investigar suspeitas de corrupção na máquina administrativa. Foram os seus últimos casos. Falhou com o governo. Mas não com minha mãe.
Eu nasci nove meses depois da morte dele. Houve suspeita de envenenamento. Teria sido vítima de agentes comunistas empenhados em impedir que se provasse a honestidade e o patriotismo dos nossos governantes. Mas uma pesquisa de opinião demonstrou que apenas uma senhora idosa de Taubaté acreditara nessa hipótese. Prevaleceu a versão de morte natural. Coração. Enfarto após uma farta refeição e uma tórrida tarde de amor. Duas coisas com que não estava acostumado. Herdei tudo o que ele tinha: uma bic e um bloco de notas. Além do charme e do riso pro lado.
Mamãe perdeu o emprego no governo, mas felizmente tinha profissão. Era massagista.. Seus clientes eram homens importantes, sempre de terno e gravata. Vinham relaxar a tensão do trabalho árduo na capital. Nessas horas, eu sempre tinha que sair. Mamãe não gostava que eu a visse trabalhando. Pra não incomodar os clientes. E também porque não cabiam três na quiti, a parte dela da quitinete que comprou em sociedade com sua melhor amiga, Mary Jane. Minha madrinha
Eu ainda moro na quiti. Minha madrinha mudou-se logo depois da morte da comadre. Acho que ficou incomodada com a minha insistência em querer dormir com ela, como fazia com mamãe depois que o último cliente saía. Foi uma época difícil. Eu só tinha 17 anos. E nunca havia dormido sozinho. Faz tempo que eu não a vejo. Ainda trabalha pro governo, parece. Organizadora de eventos. Está importante agora. Até saiu nos jornais (sou um homem bem informado, sempre leio as manchetes na banca da rodoviária).
Deixou uma afilhada morando na nete. Massagista também. Excelente pessoa, embora muito ingênua. Logo ficamos amigos. Um dia me ofereceu uma massagem de graça. E não resistiu ao meu charme rústico. Seu corpo era lindo. Os seios pareciam competir entre si pra ver qual era o mais deslumbrante. Optei por um empate, pra não haver mágoas. Confesso que me aproveitei da situação. Mas não sou nenhum canalha. Cheguei a pedi-la em casamento, pra reparar meu erro. Ela recusou. Disse que, na sua profissão, não dava pra casar. Eu não sabia que as massagistas tinham de adotar o celibato. Vai ver foi por isso que mamãe também nunca se casou.
A venda dos livros mimiografados nos bares não rende muito. Muita concorrência. Meninos vendendo chicletes. Senhoras vendendo rosas. Engolidores de fogo. Malabaristas. Mas sempre aparece alguém que compra. Especialmente no fim da noite. Brasília é uma cidade culta. Pra complementar o orçamento, também atuo no ramo da reciclagem. (Posso recolher a latinha?) Não é muito, mas tem dado pra sobreviver com dignidade. Faço pelo menos as três refeições diárias, como recomendou o presidente. Tenho conta na pastelaria da rodoviária. Com direito a dois pastéis e um caldo de cana por dia. Geralmente, tomo o caldo no café-da-manhã, almoço o pastel de carne e janto o de queijo. Mas às vezes mudo a ordem. Sei a importância de uma alimentação variada
Minha mãe era uma mulher instruída. Lia muito: Sabrina, Júlia, Bárbara, além das fotonovelas da Sétimo Céu. Aprendi a ler nessas obras. Foram elas que despertaram minha vocação de escritor. Mas meu estilo também sofreu influência das telenovelas e filmes de ação. Comecei a escrever com a bic e o bloco de notas que herdei do meu pai. Mas depois investi em tecnologia. Consegui uma Reminton semi-nova e um mimiógrafo que quase não borra os textos. É impressionante o desapego da nossa elite. Já achei até computador no lixo. Um 286 zerado. Como há anos não pago a conta de luz, não teve muita utilidade. Troquei-o por alguns litros de álcool. Pra mim e pro mimiógrafo.
Os editores ainda não reconheceram meu valor. O único que se deu o trabalho de me responder disse que a história era inverossímil, cheia de incoerências. Queria explicações. Com quem a mocinha ingênua aprendeu a pilotar um helicóptero por entre penhascos. Como o herói escapou ileso mesmo sendo alvejado a queima-roupa por bandidos armados com submetralhadora. De onde surgiu aquela manada de elefantes. Vê se alguém faz tais exigências aos autores globais ou roliudianos. Mas eu não desisto. Agora estou pensando em investir na seara do ocultismo e da auto-ajuda. É que recentemente descobri os livros do imortal Paulo Coelho. Mart. Ed Mart. Em breve estará escrito nas listas de best-selers.

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