14 junho 2009

Texto 10

Uma Adorável Família

A vizinhança era unânime: os irmãos Dexter eram assustadores.
Não porque gostavam de cantarolar o hino nacional da Croácia, ou porque se vestiam exatamente iguais, ou porque tinham a estranha mania de colecionar facas.
O problema é que Lino e Guido eram eficientes assassinos de aluguel.
Muito eficientes.
Inacreditavelmente eficientes.
Matavam com a precisão de um relógio.
Suíço.
Se Gilberto Gil tivesse gravado “Se Você Quiser Falar com Deus”, os irmãos Dexter apareceriam na capa do vinil.

- Guido, ainda no porão?
- Pois é. Estou aqui na agradável companhia do Sr... qual é mesmo a sua graça? Por favor, não chore... ah, sim: Olsen. Sr. Olsen. Prometi mostrar a ele algumas novas peças da nossa coleção.
- Ué, Guido. Pensei que você estivesse preparando o nosso jantar.
- Eu estou!

Guido e Lino eram filhos de um importante empresário, mas não se deve tirar qualquer conclusão deste fato: se tivessem sido criados por um sindicalista, seriam rigorosamente iguais, exceto pela barba feita e pela dicção impecável. Para os irmãos Dexter, matar não era apenas um ofício, mas, antes, era uma arte, um meio de expressar sentimentos, idéias e criatividade. O amor que eles sentiam pela profissão, pode-se dizer, estava no sangue.
Dos outros.

Como regra, Guido e Lino odiavam armas de fogo. Isso não os impedia, todavia, de fazer pequenas concessões quando se tratava de lazer e esporte. Em certa ocasião, em um passeio pela praia, Guido avistou inúmeros balões no ar e, sacando a espingarda do porta-malas, lançou um debochado desafio ao irmão:
- Eu acerto mais balões que você, quer apostar?
Foi uma tarde divertida, aquela.
Exceto para o padre.

Falando em padres, os irmãos Dexter ignoravam as leis dos homens e as leis de Deus. Para eles, a única norma válida era o código penal de Outras Terras, que possuía apenas um artigo, artigo este que dizia: “revogam-se todas as disposições contrárias a essa lei”.

Se um dia você encontrar os irmãos Dexter, atente-se para três preciosos detalhes que ajudam a distinguir Lino de Guido: o primeiro é moreno, baixo e tem olhos castanhos, enquanto o segundo é albino, alto e tem um olho verde e outro azul.
Claro: não se pode descartar a hipótese de que seja o contrário.
Alguns juram, aliás, que os dois não são nada parecidos.

- Acredita que o Sr. Olsen me acusou de pertencer ao Opus Dei?
- Não se aborreça, irmão. Isso apenas prova que ele tinha um péssimo gosto para leitura.
- Eu sei, mas esse tipo de preconceito machuca e...
- Também! Quantas vezes eu já disse para você não brincar com a comida?
Mas nem tudo eram flores – coroas de, na verdade – na vida dos irmãos. Com a crise econômica mundial, Lino e Guido conheceram a penúria. Os clientes diminuíram, as economias secaram e a empresa do pai pediu concordata.
Dada a habilidade com lâminas, tentaram um bico como atiradores de facas em um circo local, mas ninguém lhes explicou que a graça do número residia em NÃO acertar o assistente.
Após o primeiro ensaio, foram demitidos.
O circo ainda está de luto.

Como não sabiam fazer outra coisa senão manejar facas, e como o orgulho os impedia de aceitar qualquer colocação – “mestre de sushi, Lino, jamais!” –, não demorou para os irmãos Dexter conhecerem a fome.
Foi um período difícil.
Lino, certo dia, protestou:

- Precisamos tomar uma atitude drástica, mano. Assaltar um Banco, abrir uma ONG com patrocínio da Petrobrás, pedir um empréstimo ao BNDS, sei lá!

Após um longo silêncio, porém, Guido balançou a cabeça e ponderou:
- Eu pensei muito, Lino, e... sabe? As coisas estão difíceis, mas não podemos abrir mão da dignidade. Esqueça essas idéias. Tenho uma solução melhor, mais limpa e mais íntegra para os nossos problemas.
- Qual?
- O canibalismo.

A partir de então, muitos Srs. Olsen passaram pelo tenebroso porão: carteiros, oficiais de justiça, testemunhas de Jeová e o próprio Sr. Olsen, que tocou a campainha da casa dos irmãos – casa que lembra aquela da Família DeFeo, porém pintada de preto – para vender rifas de um sorteio organizado pela associação de moradores do bairro.
Mas não sinta pena deles: fossem um pouquinho sagazes, não teriam virado refeição.
Deviam ter desconfiado das árvores mortas.
Das placas de “afasta-se”.
Ou do enorme fosso que cerca o imóvel.

Os irmãos Dexter gostavam de pensar que viviam em uma família feliz, sem grandes dramas, diferente das famílias decadentes e hipócritas que habitavam novelas, até que dias atrás...

Dias atrás o Sr. Dexter visitou os filhos com as malas na mão. Não, não podia esperar para o jantar, o assunto era urgente: tinha recebido uma importante convocação e precisava levar Guido com ele. Por quê? Porque o monge Cármino Alvo estava muito doente e precisavam treinar um substituto e...

- Espera só um instante! "Precisavam"? De quem o senhor está falando, pai?

O Sr. Dexter suspirou. Deu uma risada forçada, olhou ao redor da casa, largou-se numa poltrona como quem se desvencilha de um pesado fardo e falou, olhando para o horizonte:
- Então é isso... certo, não dá mais para esconder. Queridos, tenho algo difícil para falar: eu não sou o pai de vocês. Meu nome verdadeiro é Salazar. Monge Salazar. A guarda de vocês me foi confiada pelo Opus Dei e...
- Por quem?!

Fez-se um silêncio na casa. Um silêncio longo, amargo e profundo, que teria se eternizado caso o Sr. Dexter não o tivesse interrompido e falado:

- E então, Guido. Vamos?

Lino procurou os olhos de Guido e, vendo que o irmão o observava, desviou o olhar na direção do pai e movimentou três vezes a sobrancelha. Depois, rapidamente, voltou os olhos na direção de Guido e fez uma expressão estranha no rosto, como quem diz: - E aí? O que acha?

O Sr. Dexter nunca mais foi visto depois desse dia.

Nenhum comentário: