Domingo à tarde. Dia de micarê na cidade. Muita expectativa, a galera pronta, abadá reformado, bermuda de marca, tênis NIKE. As vans levam os bandos até o local do show. No caminho, uma parada rápida pra abastecer: vinho, cerveja, vodka pra misturar com refri, sem falar no bom e velho suco gummi que a galera já traz de casa: cachaça, água, açúcar e QFresco pra dar a cor. Pronto, diversão garantida.
Começa o show. Não sobrou nada do que veio na van. A banda que tá tocando é um sucesso. Os fãs pulam, gritam, se emocionam com as músicas. E aproveitam também para beijar o maior número possível de bocas. Um objetivo que, para ser alcançado, requer experiência e preparo físico e psicológico: você olha no meio da multidão agitada. Escolhe aquele 'pegável' que tem a bermuda e o tênis mais caros. Aproxima-se sutilmente e se posiciona no campo de visão dele. Você ainda não bebeu o suficiente pra tomar a iniciativa, então tenta chamar atenção. Balança os cabelos, faz gestos em câmera lenta e, de vez em quando, dá uma olhada discreta. Pronto, você fez sua parte, agora é com ele. Ele percebe a sua deixa e se aproxima. "Oi", diz ele sorrindo pra você, mostrando o aparelho fixo, com borrachinha vermelha - sua cor favorita! Você também sorri, timidamente, e diz "oi".
Daí, surgem duas possibilidades:
a)Ele te agarra e te beija freneticamente, tentando apalpar tudo o que for possível, ou
b) Ele pergunta seu nome e, antes que você tenha tempo de responder, ele te agarra e te beija freneticamente, tentando apalpar o que for possível.
Agora, é só repetir a operação quantas vezes forem necessárias para que você bata o recorde da última micarê. Claro que nem sempre esse processo dá certo; às vezes, será preciso esbarrar ou pisar no pé do escolhido, acidentalmente, pra que ele te note. Mas o resultado final será o mesmo: ele vai te agarrar e te beijar freneticamente, tentando apalpar tudo o que for possível.
Não é raro também que aconteça de você ter se esquecido de comprar o velho companheiro Halls Preto quando a van parou para abastecer. Agora, em pleno show, você olha pro lado e se depara com aquele moreno alto, bonito e sensual - se é amante profissional, não se sabe - e, quando pensa em se aproximar, lembra que não pode nem dizer um "oi" pra ele, estando com aquele hálito de vinho, cerveja e gummi. Por sorte sua, o Tio da Balinha está passando bem na hora, "Graças a Nossa Senhora dos Micareteiros", você pensa, aliviada. Chama o Tio e pergunta "Tio, quanto tá o Halls Preto?". O Tio da Balinha, que com certeza você já viu em outros carnavais, com aquela mesma havaiana remendada e a camisa do flamengo, olha pra você e diz "Tá de 3."
Você fica indignada, é claro, com certeza o mesmo Halls não passaria de um real no mercadinho ao lado da sua casa. "Tá muito caro, Tio! Com essa crise papai só me deu o dinheiro do abadá e da van, tô quebrada!". Ele olha pra você. A expressão sofrida de quem está há mais de quatro horas andando entre os pulos da galera e sendo chamado de tio por gente que ele nunca vira, e que, se fossem realmente seus sobrinhos, com certeza não estariam ali. "Ahr", ele diz, provavelmente querendo dizer "Sinto muito, moça, é a lei da oferta e da procura. Depois, você ganha de mesada o que eu não ganho em 10 shows vendendo Halls de 3". E finalmente diz: "Vai querer?" Aí, você pensa na desigualdade social do país agravadas pela Crise econômica. Nos pais de família que não ganham por mês o preço seu abadá. Você pensa nas vítimas das enchentes no Nordeste. Nos milhares de desempregados que a partir de agora vão concorrer a uma vaga de Tio da Bailinha. E você toma uma decisão. Não vai mais comprar o Halls Preto e contribuir para que o Tio passe o resto da vida sendo chamado de tio por jovens bêbados. Nunca mais vai gastar dinheiro com micarê. Vai doar sua mesada pra Cruz Vermelha. Vai virar "Amiga da escola" e ativista do GreenPeace. Você vai fazer um mundo melhor pro Tio poder comprar uma havaiana nova e nunca mais precisar superfaturar o Halls Preto. Você vai..."Vai querer?", ele pergunta, te despertando das suas reflexões. Você olha pro Tio. Olha pro Halls Preto. E, finalmente, olha o moreno alto, bonito e sensual que continua sorrindo pra você, e pensa nele te beijando freneticamente, tentando apalpar tudo o que for possível. Mas você já está decidida. Olha pro Tio e diz:
- Tem troco pra 10?
- Tem troco pra 10?
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