14 junho 2009

Texto 6


Da crise


A convite do segundo, Gregor e Ariel se encontraram num bar no centro da cidade.

- Eu já disse que odeio a sua humildade? Veja esse local: simples, feio e despretensioso. E o odor? Ah, eu poderia passar a eternidade aqui... se eu fosse uma barata – disse Gregor, com um sorriso sarcástico no rosto.

- Também é bom te ver, Gregor - respondeu Ariel, ignorando a provocação.

***

Muitos talvez estranhem os fatos ora narrados, posto que Gregor e Ariel não são exatamente amigos: o primeiro é um demônio e o segundo, um anjo. É preciso entender, porém, que os anos de convivência desde a Criação e alguns gostos em comum (ambos adoram o David Bowie) criaram... vínculos. Não que troquem presentes de Natal ou apareçam juntos em eventos públicos – embora Gregor, sem sucesso, insista em convidar Ariel para encontros gospel. Apenas compartilham, por assim dizer, alguns anseios e preocupações. E Ariel parecia preocupado naquela tarde.

- Você anda exagerando – disse o anjo, com gravidade na voz. - O pessoal lá de cima está tenso.

- Ando, é? – respondeu Gregor, verdadeiramente surpreso com a acusação.

- Sei que você sempre gostou de aprontar das suas, mas... poderia chamar menos a atenção? A coisa está tão feia que os arcanjos estudam uma retaliação. Cogitam te transformar numa barata.

- Olha, não quero parecer modesto - aliás, o mundo seria um lugar estranho se os demônios fossem modestos -, mas eu não sei do que você está falando – respondeu Gregor, esforçando-se para sustentar um sorriso de desdém no rosto. - O que eu fiz com inigualável maestria que causou tamanho rebuliço no céu?

- Você sabe, Gregor. Não se faça de bobo. Sei que você me subestima porque eu te dei ouvidos e me deixei convencer a torcer pelo Corinthians, mas não me trate como...

Gregor suspirou e interrompeu Ariel. Não agüentava a choradeira do anjo, que sempre recorria ao futebol (“Corinthians foi um exagero”, reconhecia Gregor) para fazer com que o demônio se sentisse culpado.- Não é isso. Realmente não sei do que você está falando. Você não entende: eu vivo a minha pior fase. Depois dos juros compostos, das empresas de telefonia celular, da culinária baiana e da Aline Barros, eu não criei mais nada digno de nota. Logo, do que os céus me acusam dessa vez?

- Vai dizer que você não tem nada a ver com a crise econômica mundial? – acusou Ariel, inclinando o queixo à frente como se a resposta fosse óbvia.

***

Gregor não sorria mais. A conversa seguiu adiante e, nela, o demônio negou a autoria da crise. Explicou que perdeu muito dinheiro com ela, que estava cansado de tudo aquilo e que há tempos pensava seriamente na aposentadoria:

- Alguns dos seus podem julgar que o meu trabalho é fácil, que basta uma pitada de maldade aqui e acolá para que as coisas desandem direitinho, mas a verdade é que o homem, graças ao livre-arbítrio, tem se virado muito bem sem a minha ajuda.

- Você está insinuando que a crise mundial é uma criação exclusiva dos homens? Que você não imbuiu neles a ganância, a ambição, a cupidez, nada? – indagou Ariel, desconfiado.

- Aparentemente você não conhece tão bem os homens – suspirou Gregor, desanimado. – Olha, o que eu vou te contar eu nunca confidenciei a ninguém. – O demônio tomou um gole de café e, após o silêncio breve e solene que precede as mais sombrias revelações, continuou. – Lembra-se da crucificação de Jesus? Lembra-se do sujeito que gritou “libertem Barrabás”? Pois bem, fui eu.

- Como? Eu não... - Antes que Ariel pudesse dizer mais uma palavra, porém, Gregor abaixou a cabeça, estendeu a mão pedindo silêncio e, triste, continuou, num tom de voz arrastado e lamurioso:- Veja você que coisa: eu estava entre a multidão naquele dia e tudo parecia tão maçante, sabe? Era óbvio para mim que Jesus seria solto. Pensei: - isso tudo está muito certinho, eu sou um demônio, preciso criar algum caso. Por isso, quando Pilatos fez a pergunta, eu dei uma risada baixinha e gritei, apenas por fanfarrão: “libertem Barrabás”. Era só uma piada, achei que ficaria bem no Novo Testamento, mas os homens... bem, deu no que deu.

- Só uma... ?

- Pois é.


Após um breve silêncio, nitidamente incomodado com a revelação e sem muita convicção na própria descrença, Ariel disse:

- Não sei se acredito em você. Não é nada pessoal, mas, entenda, você é
um demônio, e demônios não são exatamente os defensores da Verdade, são? Sejamos honestos: se eu te der corda, daqui a pouco você diz que não tem nada a ver com o cinema francês, o comunismo, a Liza Min...

Gregor deu um sorriso desconcertado, que calou Ariel, e então percebeu
que aquela seria uma longa e desagradável conversa.


***

Horas mais tarde, bêbados, Gregor se despediu de Ariel e, antes
de sumir num beco escuro, perguntou:


- Escuta, aquele lance de me transformarem numa barata... era
brincadeira, né não?

- ...

- Não?

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