- Não quero incomodar, mas... cara, eu sou seu fã!
- Sei. Legal.
- Posso me sentar e pagar um drink?
- Sinta-se à vontade.
- Não sabia que você estava no Brasil.
- Um-hum.
- É realmente uma honra e... estranho. Você parece desanimado.
- E não deveria?
- Sei lá, julguei que estivesse feliz. Quando te vi entrar, pensei: - o safado veio comemorar.
- Ah.
- É uma crise grande. Vai abalar muitos pilares.
- Sei.
- O mundo vai virar de cabeça pra baixo. Não te agrada o caos e a pobreza? O desmoronamento dos paradigmas que sustentam a sociedade?
- Não.
- Não?
- Não!
Silêncio.
- Olha, você realmente é quem eu penso que é? Os chifres, o rabo, as patas de bode. Pensei que...
- Sou.
Novo silêncio.
- Não entendo...
- Porque o espanto? Há séculos trabalho para fazer a humanidade prosperar, para distribuir riquezas, para fazer com que todos vivam como os suecos. Por que a crise me agradaria?
- Você o quê?!
- Agora não vou conseguir fazer nem os suecos viverem como suecos!
- Calma, isso não faz o menor sentido. Você é o Dragão Vermelho, o Pai das Mentiras, o Anjo Caído, o Senhor das Trevas, o Bode Preto, o Bafo de Enxofre, O Pai do Rock e...
- Você é muito literal.
- Não, calma! Eu escuto o Iron Maiden desde criança, eu tatuei o 666 no ombro, eu até me filiei aos Democratas. Todos – absolutamente todos! – concordam que você é a sombra por trás das guerras, dos desastres, das pestes, da pobreza, das crises, das...
- Bobagem. Não ignoro que muitos que julgam dominar o satanismo repetem bobeiras tais, mas eu sempre fui umbon vivant. Além do mais, em guerras, desastres, pestes e afins, o meu lucro é mínimo. Pense: os responsáveis pelas atrocidades e os titereios ficam sob a minha custódia, mas as vítimas, que são a maioria, voam para o alto e engrossam as longas fileiras do céu. Acha que eu gosto disso?
- Estou confuso. Isso afronta tudo o que eu aprendi.
- Tente enxergar o todo. Quem sempre cantou as glórias da pobreza? Quem inventou as doenças? Quem se deleita com os desastres naturais? Em nome de quem as guerras são declaradas? Acredite, quem gosta de tais coisas é Ele, não eu.
- Ele? Ele quem?
- Ele. O Todo Poderoso. A Causa Primeira. O Criador do Universo.
- Acho que alguém bebeu demais, não? Eu não sou fã do velho, mas...
- Dificuldades inspiram virtude – e, quando não, operam como atenuantes. A Justiça de Deus é lamentavelmente exata, sopesa ações, omissões, ambiente, circunstâncias, atenuantes, e isso me atrapalha um bocado.
Os dois se encararam.
- Porque o espanto? Há séculos trabalho para fazer a humanidade prosperar, para distribuir riquezas, para fazer com que todos vivam como os suecos. Por que a crise me agradaria?
- Você o quê?!
- Agora não vou conseguir fazer nem os suecos viverem como suecos!
- Calma, isso não faz o menor sentido. Você é o Dragão Vermelho, o Pai das Mentiras, o Anjo Caído, o Senhor das Trevas, o Bode Preto, o Bafo de Enxofre, O Pai do Rock e...
- Você é muito literal.
- Não, calma! Eu escuto o Iron Maiden desde criança, eu tatuei o 666 no ombro, eu até me filiei aos Democratas. Todos – absolutamente todos! – concordam que você é a sombra por trás das guerras, dos desastres, das pestes, da pobreza, das crises, das...
- Bobagem. Não ignoro que muitos que julgam dominar o satanismo repetem bobeiras tais, mas eu sempre fui umbon vivant. Além do mais, em guerras, desastres, pestes e afins, o meu lucro é mínimo. Pense: os responsáveis pelas atrocidades e os titereios ficam sob a minha custódia, mas as vítimas, que são a maioria, voam para o alto e engrossam as longas fileiras do céu. Acha que eu gosto disso?
- Estou confuso. Isso afronta tudo o que eu aprendi.
- Tente enxergar o todo. Quem sempre cantou as glórias da pobreza? Quem inventou as doenças? Quem se deleita com os desastres naturais? Em nome de quem as guerras são declaradas? Acredite, quem gosta de tais coisas é Ele, não eu.
- Ele? Ele quem?
- Ele. O Todo Poderoso. A Causa Primeira. O Criador do Universo.
- Acho que alguém bebeu demais, não? Eu não sou fã do velho, mas...
- Dificuldades inspiram virtude – e, quando não, operam como atenuantes. A Justiça de Deus é lamentavelmente exata, sopesa ações, omissões, ambiente, circunstâncias, atenuantes, e isso me atrapalha um bocado.
Os dois se encararam.
- Está me dizendo que você, a Grande Besta, o Rabo-de-Seta, o Mefisto, o Destruidor de Reis, o Adversário, o Anjo do Poço sem Fundo, trabalha para que os homens vivam com fartura, saúde e casados com suecas, enquanto Deus apronta das suas e se deleita com guerras, pobreza, doenças e desastres naturais?
- Viu como não é difícil? Você é meu, pernambuco: entendeu direitinho.
- Por favor, isso é um absurdo!
- Ah é, é?
- Não quero parecer grosso, mas essa é a teoria mais estapafúrdia que já ouvi.
- Não é teoria.
- Sem falar que, com todo o respeito, há um furo gigante nessa história. Os suecos têm cultura, educação, dinheiro, segurança. Se o mundo fosse uma grande Suécia, o seu poder de influência seria muito menor.
- Você não entendeu nada. Vou ser mais claro: a tolerância de Deus é proporcional às facilidades do homem.
- E daí?
- E daí que, se o mundo fosse uma grande Suécia, pecados insignificantes seriam imperdoáveis. Eu poderia me dedicar ao bom e velho trabalho artesanal, cochichar uma invejinha aqui, uma preguicinha ali, e isso bastaria para encher o inferno de boas almas. Sem falar que o serviço de hotel seria muito melhor.
- Quer dizer que, quanto mais educada, segura, íntegra e rica é uma comunidade, menor é a tolerância de Deus para com os seus pecados?
- Sem dúvidas. Por que acha que há poucos políticos brasileiros no inferno? Os safados têm boas desculpas: a cultura local, os costumes, o clima tropical, etc. São as atenuantes, lembra? Já os políticos suecos...
- Sei não, sei não.
- Isso é bíblico, meu caro. Quando o homem habitou a Suécia das Suécias...
- Suécia das Suécias?
- Sim, o Paraíso.
- Ah.
- Quando o homem habitou o Paraíso, qual foi o grande pecado que lhe rendeu uma condenação daquelas? Ele matou alguém? Desfalcou alguma empresa? Superfaturou licitações? Produziu bandas de axé?
- Viu como não é difícil? Você é meu, pernambuco: entendeu direitinho.
- Por favor, isso é um absurdo!
- Ah é, é?
- Não quero parecer grosso, mas essa é a teoria mais estapafúrdia que já ouvi.
- Não é teoria.
- Sem falar que, com todo o respeito, há um furo gigante nessa história. Os suecos têm cultura, educação, dinheiro, segurança. Se o mundo fosse uma grande Suécia, o seu poder de influência seria muito menor.
- Você não entendeu nada. Vou ser mais claro: a tolerância de Deus é proporcional às facilidades do homem.
- E daí?
- E daí que, se o mundo fosse uma grande Suécia, pecados insignificantes seriam imperdoáveis. Eu poderia me dedicar ao bom e velho trabalho artesanal, cochichar uma invejinha aqui, uma preguicinha ali, e isso bastaria para encher o inferno de boas almas. Sem falar que o serviço de hotel seria muito melhor.
- Quer dizer que, quanto mais educada, segura, íntegra e rica é uma comunidade, menor é a tolerância de Deus para com os seus pecados?
- Sem dúvidas. Por que acha que há poucos políticos brasileiros no inferno? Os safados têm boas desculpas: a cultura local, os costumes, o clima tropical, etc. São as atenuantes, lembra? Já os políticos suecos...
- Sei não, sei não.
- Isso é bíblico, meu caro. Quando o homem habitou a Suécia das Suécias...
- Suécia das Suécias?
- Sim, o Paraíso.
- Ah.
- Quando o homem habitou o Paraíso, qual foi o grande pecado que lhe rendeu uma condenação daquelas? Ele matou alguém? Desfalcou alguma empresa? Superfaturou licitações? Produziu bandas de axé?
- Eu acho que...
- Meu rapaz: o homem tomou um belo chute nos fundilhos por simplesmente... morder uma frutinha de nada. Só. Uma mordidinha e pronto, cabeças rolaram. Eu sei. Eu estava lá.
Breve silêncio.
- Cara, acho que agora eu peguei o lance.
- Ãh? Pegou o que?
- Quanto mais o mundo se aproximar do paraíso, menor será o leque de desculpas que o homem terá para justificar os seus erros. Ou seja: a mão de Deus pesará mais. Por isso, para você, é melhor que....
- Você está enxergando o todo, não é? Maravilha, você está enxergando o todo. Acredita em mim agora?
Longo silêncio.
Goles de whisky.
- Espero que não se importe, mas vou apagar a tatuagem.
- Como?
- A tatuagem, o número da besta.
- Você está sendo radical.
- Eu não passei todos esses anos escutando o Iron para adorar alguém que quer ver tudo nos eixos. Eu gosto do caos.
- Não diga isso.
- Eu gosto da crise.
- Comunista!
- Estou decepcionado. Até logo.
- Calma, vamos conversar um pouco mais.
- Fui.
- Espere, não vá. Volte aqu... diabos, ninguém respeita mais nada nos dias de hoje. Que dia!
Passos de alguém se aproximando.
- Perdoe-me, eu escutei sem querer a conversa de vocês. Você realmente é o...
- Sou.
- E você está mesmo chateado com a crise mundial?
- Eu pareço feliz?
- Só não entendo uma coisa: e os banqueiros? Veja, é que tantos rodaram juntos dessa vez.
- E daí?
- Nem a alma dos banqueiros te anima? Importantes, ricos, gordos e poderosos banqueiros?
- Por amor de Deus, não fale besteira!
- Mas...
- Por que eu me animaria? Todo mundo sabe que banqueiro não tem alma!
- Mas...
- Que dia! Que dia!
- Meu rapaz: o homem tomou um belo chute nos fundilhos por simplesmente... morder uma frutinha de nada. Só. Uma mordidinha e pronto, cabeças rolaram. Eu sei. Eu estava lá.
Breve silêncio.
- Cara, acho que agora eu peguei o lance.
- Ãh? Pegou o que?
- Quanto mais o mundo se aproximar do paraíso, menor será o leque de desculpas que o homem terá para justificar os seus erros. Ou seja: a mão de Deus pesará mais. Por isso, para você, é melhor que....
- Você está enxergando o todo, não é? Maravilha, você está enxergando o todo. Acredita em mim agora?
Longo silêncio.
Goles de whisky.
- Espero que não se importe, mas vou apagar a tatuagem.
- Como?
- A tatuagem, o número da besta.
- Você está sendo radical.
- Eu não passei todos esses anos escutando o Iron para adorar alguém que quer ver tudo nos eixos. Eu gosto do caos.
- Não diga isso.
- Eu gosto da crise.
- Comunista!
- Estou decepcionado. Até logo.
- Calma, vamos conversar um pouco mais.
- Fui.
- Espere, não vá. Volte aqu... diabos, ninguém respeita mais nada nos dias de hoje. Que dia!
Passos de alguém se aproximando.
- Perdoe-me, eu escutei sem querer a conversa de vocês. Você realmente é o...
- Sou.
- E você está mesmo chateado com a crise mundial?
- Eu pareço feliz?
- Só não entendo uma coisa: e os banqueiros? Veja, é que tantos rodaram juntos dessa vez.
- E daí?
- Nem a alma dos banqueiros te anima? Importantes, ricos, gordos e poderosos banqueiros?
- Por amor de Deus, não fale besteira!
- Mas...
- Por que eu me animaria? Todo mundo sabe que banqueiro não tem alma!
- Mas...
- Que dia! Que dia!
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