15 abril 2006

Bela Donna



Gisela Pinheiro Lima



Donna. Bela Donna. Está no rótulo, digo, na plaqueta. Você nunca ouviu falar de mim. Eu sou assim. Discreta.



Eles entram e saem do meu consultório, às dúzias. Ok, só dois ou três. Por ano. Sou seletiva. Meu nome não é Donna por acaso.E não é bem um consultório. É só um "tório". Deve ser a outra metade do "escri" que fica de frente, entre uma pastelaria e um cabeleireiro. Ou é uma loja de carimbos? Não sei mais. Dizem que tem um detetive lá. Nunca vi, e ele não tem plaqueta. Expulsei as baratas daqui, e soube que elas foram todas para lá, a Carmelita inclusive. Eu não ligo. Não sou sentimental. Odeio baratas, detetives baratos e versos pobres. Dos poetas ricos eu cuido. Não curo suas dores, senão a inspiração acaba. Entorpeço. Donna. Bela Donna. Eu tenho plaqueta.



Estava fingindo que fazia as unhas para disfarçar minha inteligência superior e aguda perspicácia enquanto espiava o movimento do escri (as baratas do tal detetive, em greve de novo), quando pressenti sua presença. Olhei de esguelha, pra dar uma de difícil. Comecei pelos pés, e levei vinte minutos pra chegar nos bíceps. Olhei pro esquerdo, e levei mais vinte minutos pra cruzar todos os músculos do peito até chegar no direito. Recuperei o fôlego e não sorri. O sorriso dele ocupava todo o espaço do tório, e eu tinha que manter minha fama de má. Tinha um calhamaço de papéis embaixo do bíceps, digo, do braço, e cheirava banho e colônia pós-barba. Estava dizendo algo. Além de tudo, falava. Quase mandei ele ficar quieto, estava atrapalhando minha concentração no...no. Já que ele já tinha me desconcentrado mesmo, resolvi ouvir.

- Meu poema...

Era um poeta. Eu sabia. Seus bíceps eram um poema. Seu músculo, digo, poema preferido estava circulando pela Internet, assinado pelo Veríssimo. Luiz Fernando.

- Eu sabia - eu disse.

Ele fez cara de quem não tinha entendido. Era mais charmoso ainda quando não entendia. Ficava assim, com cara de menino desprotegido. Eu ia dizer que cuidaria dele. Leria poemas apócrifos pra ele antes de dormir. Mas ele era um cliente. Eu era uma profissional. E ainda não contei pra você o que tinha na plaqueta além do meu belo nome: Donna. Bela Donna. Daqui a pouco eu conto. Eu sou assim. Misteriosa. E você pode esperar. Ele não. Afinal, tinha entrado ali por causa da plaqueta. E não tinha entendido.

- Não entendi.

- É que a plaqueta...

- Não. Não entendi por que você sabia.

- Ah. Isso.

- É. Como você sabia?

- A culpa é sempre dele. As pessoas assinam o nome dele em tudo, e ainda por cima com a grafia errada. Aposto que seu poema era meloso.

Ele pareceu ofendido.

- Não escrevo poemas melosos. Só românticos.

- Nem ele. Mas as pessoas, sei lá. Cismaram. Acham que ele faz textos melosos que ficam grudando pela Internet.

Mais essa. Musculoso, cheiroso e romântico - e sem ser meloso. Fiz o que estava evitando desde o começo: olhei pra mão esquerda. Bah. Ninguém é perfeito. Cruzei as pernas, só pra ele aprender. Fez suish-suish.

- Já vi isso em algum lugar..

Interrompi, antes que ele me desmascarasse (ou ao narrador dessa história). Alguém assim sedutor deveria conhecer todas as crônicas do Verissimo, mas estávamos perdendo a objetividade.

- Você mandou sua poesia para alguém pela Internet?

Perguntei e já fui tomando notas na agenda com a minha Lami chinesa. Deus me livre usar bic e bloquinho. Coisa de gente sem plaqueta. Se bobear, sem hemácias. Eu tenho leitura. Tem uma apostila de cursinho calçando o pé da mesa do tório. Donna....

- Na verdade, minha 2ª ex-mulher mandou para uma amiga.

- E a amiga...?

- Bom, acabou virando minha terceira mulher.

O poema devia ser mesmo bom. Olhei de novo pra ele....

- Será que...

- O quê?

- Nada.

Por um instante tive a impressão que já nos conhecíamos. Mas ao caso, ao caso.

Disse para ele que teríamos que acessar a Internet, e que não poderíamos usar o meu lépi-tópi porque eu estava com problemas de conexão.Não ter conexão nem lépi-tópi era o problema, mas um profissional sério não aborrece seus clientes com essas minúcias técnicas. Tinha a esperança que ele me convidasse pra conhecer seu hardware, mas acabamos num cyber café da região. Quando a dona do café terminou o jogo de paciência, entramos no Orkut. Que não funcionou. O Server rodava feito um donut inchado. Fomos para a casa da primeira ex-mulher, e um dos 7 filhos veio correndo abraçar o pai. A filha mais velha nos chamou na cozinha. Lendo os scraps do Orkut da segunda ex-mulher do pai descobrira que ela, de raiva, havia colocado a assinatura do Verissimo no poema dele e mandado numa figurinha colorida - daquelas que dizem "clique aqui para ler o poema" - para sua lista de amigas do Orkut, só umas 1700 pessoas, porque ela tinha recusado as que não tinham intimidade.



- Tudo resolvido. Agora temos que contar com a paciência de Jó da comunidade do Verissimo para desfazer o mal-entendido. Pelos meus cálculos, em 17 anos vão re-atribuir o poema a você. Adeus.

E comecei a ir embora. Tenho dignidade. E ele, mulheres demais.

- Espere, Bela!

Olhei pra ele, e seus olhos intensos me diziam "vou largar todas a minhas ex-mulheres e fugir com você para Canoa Quebrada", mas a boca formulava outra coisa, como num filme mal dublado:

- Você é a pior detetive particular que eu já vi. Por que você insiste nessa profissão?

- Eu não sou detetive. Sou cartomante.

Confesso. Fui eu quem roubou a plaqueta. E o pedaço de fita adesiva que eu tinha só deu pra cobrir o nome do Mort. Ed Mort. E escrever o meu por cima. As cartas não mentem jamais. Já eu...

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