15 abril 2006

Canard à l’orange

Luis Augusto Silva


Vogelstein largou as aulas de Inglês, que já não eram mais sua fonte de subsistência. Pouco tempo depois de retornar de Buenos Aires e de receber a bendita-maldita carta de Borges, sua tia Raquel foi dessa pra melhor (ao menos era isso que o sobrinho supunha). Houve honrarias dignas de um funeral de chefe de Estado – disso ele não abriria mão. Não poupou esforços nem reais. Do ramo dos Vogelstein brasileiros, antes pobre, só sobrara ele mesmo. Pelo menos era o que atestavam as listas telefônicas que vasculhou na internet.

Angela não ficou muito tempo morando com o tradutor. Foi o bastante para fazer a cirurgia que lhe retirou as pintas indesejáveis espalhadas pelo corpo. Foram-se embora as pintas e o trauma que carregava dentro de si toda vez que se via nua ou com um decote mais radical. Enfiou alguns EMEÉLES de silicone nos peitos. Tratou-se no Rio de Janeiro com renomados cirurgiões plásticos. Tudo bancado por ele, Vogelstein, que tinha ficado rico. Muito rico.

Dizem que as heranças podem ser boas ou más. Herdar uma dinheirama é o sonho da maioria. Se não houver desconto de imposto de renda, tanto melhor. No frigir dos ovos, todo mundo nutre a esperança de ser um filho bastardo do Ermírio de Moraes ou, melhor ainda, de um dos Safra. Por outro lado, herdar uma diabetes ou uma impotência sexual irremediável não é algo que se possa desejar. Para Vogelstein sobrou a primeira opção. A fortuna deixada por Rotkoft não era digna de Onassis, mas vá lá. Considerando fatores como câmbio e o rígido hábito europeu de poupar, o resultado fez do professor um aposentado vida-mansa, independente, com dinheiro suficiente para viver o resto de seus dias sem se preocupar com as oscilações inflacionárias e as crises financeiras do mundo globalizado. Nada mais de aulas canceladas na última hora (normalmente às vésperas do pagamento de uma conta de luz) ou de traduções de romances policiais de qualidade duvidosa. Não. Tudo isso era desnecessário. Pena Alef não ter sobrevivido para usufruir dos emolumentos que o dinheiro proporciona. Mesmo para um gato, dinheiro farto é bem-vindo.

Sem tia Raquel, sem Alef, sem Angela e sem seus malcriados alunos, sobrou-lhe o apartamento do Bonfim, seus livros e sua conta bancária abastada. E o ócio, é claro.

- Espero que tenha uma melhor sorte, doutor - disse-lhe o antigo dono do restaurante, logo após assinarem o contrato.

Depois que ficou rico as pessoas passaram a lhe chamar de doutor. No começo ele tentou contrariar esse tratamento, mas acabou se acostumando e, no final das contas, gostou da idéia. Melhor doutor do que professor – concluiu.

- Este vai ser um restaurante diferente, doutor – afirmou, contundente, para o Clemêncio, seu advogado. Este sim doutor, tinha até registro da OAB.

- Não me leve a mal, doutor Vogelstein... mas esse negócio de restaurante e livraria, sei não...

- Grandes saraus, grandes recitais, vinhos magníficos e comida diversificada da melhor qualidade. Tem tudo pra dar certo. Só falta mesmo um cozinheiro. Mas isso há de ser o de menos, meu caro.


Lucídio se apresentou numa manhã de terça-feira. Vogelstein imaginou que se tratava de um candidato a administrador do restaurante – vaga que já tinha sido preenchida há dois dias. O professor não estava disposto a controlar estoques de iguarias ou qualidade de temperos. Nem mesmo do caixa queria saber. Importava-lhe ser um freqüentador assíduo e atuante, que reestabelecesse o interesse por Borges e Poe. Quem sabe, até, ser o anfitrião da próxima reunião da Israfel Society, ainda que tivesse que trombar novamente com o japonês tresloucado que odiava os subtrópicos ocidentais. E que não tinha senso de espaço. Ou que era, meio que inconscientemente, um pino de boliche.

Comida, livros e dinheiro. A combinação perfeita para uma vida feliz. Faltaria uma mulher estupenda, mas isso não seria barreira intransponível mediante sua riqueza.

- Desculpe, senhor... senhor...
- Lucídio.

Houve uma pausa. O entregador de cervejas e refrigerantes tropeçou e derrubou quatro garrafas. Duas delas se quebraram. Outras duas sobreviveram à queda.

- Bem, Lucídio. Já temos o gerente, sinto muito. Lúcia!!! – gritou com sua auxiliar. Já não falei pra cancelar o anúncio do gerente?!
- Sou cozinheiro, doutor...
- Cozinheiro?

O espanto era explicável. Vogelstein já vira todo tipo de excentricidade. Goleiro vesgo, abduzidos hospedados em naves extraterrestres triangulares, vegetarianos e etecetera e tal. Mas um cozinheiro trajado ao rigor de um lord inglês, era realmente imprevisível em terras gaúchas.

- Cozinha francesa? – quis saber o patrão.
- Sim.
- Espanhola?
- Almódovar repetiria o prato.
- Italiana?
- A massa da pizza tem de ser fina. Vegetais como cobertura são bem-vindos. Comida italiana, ao contrário do que pensam... o segredo não está no molho. Ovos de patas européias e trigos selecionados produzem massas apetitosas.
- Mineira?
- Leitoa à pururuca. Tutu. Torresminho. Fácil, fácil...
- Churrasco?
- Sem segredo, ainda mais estando aqui, em Porto Alegre.
- Japonesa?
- Fugu... é só ter cuidado.
- Como assim, cuidado?
- Bem... tem que se ter cuidado. Mas é irresistível.
- Feijoada?
- Feijoada? Minha especialidade.

O “Canard à l’orange” foi inaugurado em abril. Em pouco tempo ganhou as páginas culinárias mais cobiçadas da imprensa gaúcha. O arroz de carreteiro de Lucídio alcançou fama no Planalto. Deputados, senadores, ministros... o presidente só não foi provar a especiaria porque sua agenda de viagens internacionais estava lotada. Mas certamente ele iria, mais cedo ou mais tarde.

- Bem, Lucídio... não há como não reconhecer que você é a alma deste negócio. Então quero abrir o jogo com você – disse Vogelstein.
- Sou todo ouvido.
- Não sei qual é a sua real intenção. Quero dizer, às vezes penso que, de uma hora pra outra você possa querer navegar em outros mares, por assim dizer. E aí vou ficar na mão.
- Não pretendo sair tão cedo, doutor. A não ser que não queira mais os meus préstimos.
- Longe disso! Então resolvi aumentar seu salário. E lhe oferecer também participação nos lucros.
- Ótimo.

Lucídio ia se retirando sem dizer mais nada. Foi quando Vogelstein pediu para que ele ficasse mais um pouco. E lhe comunicou que, dali a uma semana, receberiam um famoso escritor que fecharia o restaurante só pra si. O tal escritor vinha de uma dieta fundamentada em hortaliças e legumes cozidos. E pão integral. Não estava mais resistindo, queria um jantar especial, ouvira falar do “Canard à l’orange”...

- E o que ele vai querer?
- Picadinho de carne com farofa de ovo. E banana frita de sobremesa.
- Hmmm... não tem problema.
- Qual o nome do escritor? – quis saber Lucídio.
- Verissimo. Luis Fernando Verissimo.
- Ótimo! – saiu da sala.


Verissimo chegou exatamente às sete da noite. Veio num táxi. Anotou o celular do motorista para retornar para o casarão depois do jantar. Vogelstein fez um malabarismo danado para fechar o restaurante. Quase se arrependeu, pois recebeu até ameaças de morte. Mas não teve como voltar atrás.

O escritor pediu um vinho italiano. Branco, temperatura natural. Não se importou com as convenções que ditam que o vinho “isso” combina com o prato “aquilo”. Optou pelo vinho, ainda que fosse traçar um suculento picadinho depois. Talvez uma caipirinha de vodca fosse melhor, vai saber!

- Tem um problema – comentou Verissimo com seu anfitrião. Não gosto de jantar sozinho. Pode me acompanhar?
- Bem... na realidade, eu andei beliscando umas coisas...

Neste momento Lucídio entrou com um grande recepiente de inox e colocou-o sobre a mesa. Tirou a tampa. O cheiro do picadinho se espalhou pelo ambiente. Em seguida, trouxe a farofa. Vogelstein o apresentou a Verissimo. “Muito prazer.”

- Janta conosco? – perguntou LFV para Lucídio.
- Com prazer.

Os três devoraram o picadinho em poucos minutos. Não houve diálogo nesse período. Algumas trocas de olhares apenas. Vogelstein parecia estranhar o convite do escritor. E mais ainda a aceitação de Lucídio. Tudo estranho. Bem estranho.

Verissimo arrotou em alto e bom som. E pediu a sobremesa. A banana frita veio salpicada com canela em pó, estrategicamente espalhada por toda a sua superfície. Vogelstein afirmou nunca ter visto uma canela daquela cor, mas isso não importava, porque nunca tinha saboreado uma sobremesa tão magnífica como aquela. Lucídio sorriu. Talvez pela primeira vez nos últimos meses, seu sorriso não pareceu forçado.

- Agora acabou. Definitivamente, acabou – afirmou Verissimo.
- Com certeza tem mais picadinho na cozinha... Lucídio nunca deixa de economizar uma porção individual para o caso de o cliente querer mais – respondeu o dono do restaurante.
- Lucídio?... – disse o escritor, cedendo a palavra ao cozinheiro.
- O que ele quis dizer é que acabou para nós, doutor Vogelstein. Aliás, permita-me não lhe chamar mais de doutor...
- Ok.

Lucídio:

“Ele (apontando para Verissimo) não agüentava mais essa história de envenenamento. Perdeu as contas dos convidados que deixou de receber em sua casa. Eles, os convidados, não aceitavam um uísque sequer. Nem mesmo uma porção de provolone. Depois de seus romances, não havia cristão que não suspeitasse que, estando ao lado dele para comer ou beber, corria o risco de se tornar mais um anjo. Temiam que, por trás de nós, Vogesltein, havia não uma ficção delirante, mas sim personagens reais que seriam seus soldados para envenenar o mundo. E, com isso, toda a comida do universo ficaria à sua disposição. Então ele resolveu nos despachar para onde estão os confrades do Clube do Picadinho, Sócrates (o filósofo, não o meia direita) e Cleópatra. “O céu dos afortunados envenenados” . Eu e você, e ele também, através da “Canela Sagrada de Mahtma”, uma canela de aspecto tão diferente, como você mesmo comentou, nos despedimos deste mundo agora. Agorinha mesmo. Faltam poucos minutos para o veneno fazer efeito”.

Vogelstein pensou em argumentar, porém desistiu.

Lucídio retirou a mesa.

Verissimo, silencioso, saiu do restaurante e chamou o táxi. Ainda dava tempo de ouvir uma de Miles Davis e de pensar como seria seu mundo se estivesse numa ilha deserta com Luana.

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