19 abril 2006

Eu minto também

Claudio Roberto De Jesus Pereira

Era um dia enfadonho, além das complicações familiares que lhe acompanhava, tinha as atribulações normais de um horário de almoço. O engarrafamento, as buzinas, a fechada do motorista irresponsável, os eternos sinais vermelhos, os flanelinhas... Enfim chegou ao restaurante, o frescor do ar condicionado e o cheiro da comida saborosa supostamente lhe traria a calmaria, no entanto, ao olhar para uma mesa a uma ligeira distância da sua, deparou-se com o escritor Luis Fernando Veríssimo.


- Sr. Veríssimo? – Perguntou o homem, no intuito de certifica-se que não iria cometer nenhuma injustiça, pois dali em diante iria proferir diversas palavras de baixo calão contra o nobre escritor.

- Sou sim, pois não!

- Eu queria trocar algumas palavras com o senhor...

- A vontade, sente-se.

- Não precisa, o que eu tenho pra dizer, digo de pé mesmo. Eu queria lhe mostrar a minha indignação contra o senhor. – O seu semblante mudou naquele momento, estava transtornado e com uma raiva que surpreendia LFV.

- Mas, mas, mas o que eu fiz? – gaguejou o nobre escritor

- Escreveu...

- Escrevi o que? – o sr. Veríssimo continuava atônito com a investida surpresa e emendou – Eu só escrevo, essa é a minha profissão, o senhor pode me dizer o que eu fiz de errado?

- O senhor escreveu uma porra de livro que esculhambou a minha vida.

- Desculpe-me, mas não tive a intenção – Dotado de uma educação e paciência invejável LFV, mesmo acometido do sobressalto, mantinha-se tranqüilo.

- E é só assim? O senhor acha que pedindo desculpa resolve meus problemas, não é bem por aí... – neste momento, a tranqüilidade do escritor começou a fraquejar, assim, ele o interrompeu.

- Mas meu senhor, não fique desse jeito...

Ele, então, bradou num tom que causava constrangimento e já denunciava a discussão a todos que presenciavam: - Sem mas, mas... Não me interrompa que eu não gosto.

O homem era um brutamontes parrudo, os braços, mesmo cobertos pela camisa, percebia-se forte como um lutador de boxe. Com tantos atributos de convencimento, o renomado escritor só tinha que concordar: - Certo, tudo bem, desculpe-me...

- Eu também não gosto de ouvir ninguém me pedindo desculpas feito um maricas. Esse seu jeitinho todo educado está me irritando mais ainda.

Elevando um pouco o tom de voz, a fim de dar um pouco mais de "grossura", LFV diz: - Como o senhor quiser. O senhor pode me dizer o que aconteceu mais detalhadamente?

- Minha mulher me largou, eu estou morando numa pensão de merda, e sabe por que tudo isso? Por que ela leu aquela bosta de livro...

- Acalme-se, senhor!

- Já disse para não me interromper... E eu estou calmo, não está vendo como estou calmo? Se eu não estivesse calmo já teria lhe enchido de sopapos.

- Perdão, senhor, não o interromperei mais.

- O senhor não se sente mal em fazer isso com a vida das pessoas? Dorme com a consciência tranqüila?

LFV parecia ironizar o sofrimento do brutamontes, respondendo assim: - Nunca tive problemas com as coisas que escrevo, tampouco tenho problemas com insônia.

- Pois eu digo uma coisa, o senhor arrumou problemas com o cara errado. Vamos lá pra fora resolver nossas pendengas agora.

Sair na porrada, e com a desvantagem de idade e tamanho, não era uma idéia inteligente. A sabedoria que lhe é nata o fez tentar dissuadir o grandalhão de partir para a violência física.

- Meu amigo... – Quando tentou começar a frase, LVF foi interrompido.

- Alto lá! Eu não sou seu amigo. Até que gostava das coisas que o senhor escreve, mas agora odeio tudo.

- A raiva é ruim fil..., digo, senhor.

- Ruim é o que o senhor fez e continuará fazendo, se ninguém der um jeito no senhor. E eu estou disposto a quebrar essa sua cara de pseudoinocente.

- Antes de me quebrar a cara, o senhor pode me dizer que livro a sua senhora leu?

- O nome está lá na capa, já é um acinte aquilo lá, "As mentiras que os homens contam".

- Mas senhor, aquilo é tudo ficção. Além do mais, eu já comecei o livro com uma tréplica, eu dei motivos plausíveis para a mentira dos homens. Quer saber? Até a mentira do senhor deve ter tido um motivo egrégio que...

- Dar para o senhor falar num português que eu entenda?

- Pois não, descu... Continuando! A sua mentira deve ter um motivo mais nobre que o próprio ato, então

– O escritor conseguiu trazer a atenção do homem para a conversa e a sua raiva parecia diminuir, seu semblante se acalmava aos poucos, principalmente quando disse que aquele fatídico dia era o seu aniversário. Já poderia enxergar uma ponta de sorriso que saltava no canto da boca, isso o incentivou a continuar – Outra coisa, o senhor há de convir que é um homem muito grande e muito mais novo que eu, sendo assim, não pode querer brigar comigo, não ficaria bem para o senhor, já pensou se eu ganho a briga? O senhor iria ficar ridicularizado – nesse momento o riso tomou conta da conversa, Veríssimo aproveitou a deixa para emendar – e hoje seria um bom dia para eu ganhar uma briga, é meu aniversário.

- Seu aniversário! É mesmo seu Veríssimo? – O homem parecia definitivamente tranqüilizado, nesse momento já estava condescendente com a data festiva do escritor, mesmo assim, ainda retrucou - O senhor poderia ter colocado um lembrete tipo aqueles do Ministério da Saúde, mais ou menos assim "O autor adverte: As histórias contadas aqui não devem ser levadas em consideração para um relacionamento da vida real", pronto! Assim, eu estaria salvo dessa confusão toda.

- Agora, conta aí, como foi que sua mulher brigou com você? Que mentira você contou?

- Veja bem, seu Veríssimo, eu sempre dava as minhas variadas, uma escapulida daqui, outra dali. E sempre tinha uma boa desculpa pra contar, minha mulher nunca desconfiava – o papo dos dois já estava mais amigável que nunca, pareciam amigos de longas datas.

- Pois é seu... Você não me falou o seu nome?

- Luiz.

- Coincidência, somos xarás!

- Não, na verdade o meu é com "z".

- Ah tá! Mas conta aí, como foi que sua mulher descobriu sua escapada conjugal?

- Seu Veríssimo, eu nem lhe conto. Eu saí com a estagiária lá da empresa. Pense numa morena gostosinha, seu Veríssimo, que peitinhos, que bundinha! Ah! Só de pensar já fico... Quer dizer, me desculpe, continuando... Quando estou saindo do motel, minha mulher está lá me esperando... Ela me fecha com o carro dela e parte pra agressão, eu a segurei e comecei a explicar que a menina era uma estagiária da empresa e que nós estávamos ali a serviço. Inventei que a nossa empresa estava fazendo umas entrevistas de aceitação de mercado, o senhor sabe, eu trabalho numa fábrica de artefatos de banheiros, motel tem banheiro, eu não dei um fora muito grande, minha desculpa tinha fundamento. Ela nem me deu ouvidos, disse que essa desculpa era muito pior que as do livro do LFV...

- Bem, o senhor me desculpe, mas há de convir que essa sua desculpa é muito esfarrapada mesmo. Mas nós poderíamos inventar uma desculpa melhor para reparar essa sua.

- Não, seu Veríssimo, é melhor o senhor deixar isso pra lá. Pensando bem, eu estou até numa boa com essa vida de separado, agora posso curtir as garotas, não tenho que mentir pra chegar em casa mais tarde...

- E o senhor ainda queria brigar comigo. Vê só que perversidade, bater num homem com quase 70 anos...

- É mesmo, seu Veríssimo? Não sabia que o senhor já tinha isso tudo! Nem parece, o senhor tá inteirão!

- Pois é, meu caro, completo hoje. Daqui a pouco deve chegar os meus amigos para a comemoração. O senhor não quer participar?

- Não, seu Veríssimo, eu estou com um pouco de pressa... O senhor me desculpe, estraguei o seu almoço de aniversário.

- Não se desculpe, isso acontece, o senhor estava nervoso, culpe o estresse...

O homem se despede, volta à sua mesa e almoça tranqüilamente. Quando ele vai embora, o escritor suspira aliviado. Agradece a Deus por está vivo, sem nenhum machucado e por ter sido rápido em mentir adiantando a data do seu aniversário para desviar a atenção do homem.

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