15 abril 2006

Fernando e a perna depilada


Paulo Lima


Fernando acordou num sobressalto espantado e com uma fina camada de suor banhando-lhe todo o corpo. Olhou para a companheira de décadas que ressonava ao seu lado e fez uma breve nota mental para lembrá-lo de escrever, novamente, sobre os dissabores da velhice. Fernando completaria 70 anos no dia seguinte.
Levantou-se e atravessou a escuridão até a cozinha. Apenas quando ligou a luz notou que estava de óculos, que dormira de óculos, que nascera de óculos. Jogou-o sobre a mesa num inútil ato que expressasse sua pequena revolta pele sono interrompido e pelo tempo ininterrupto. Embaçou o mundo, que naquele instante se resumia a sua bem cuidada cozinha. Recolocou os óculos e voltou a enxergar resignado. Era a décima sétima noite em que aquele sonho estranho lhe perseguia e lhe tirava o sono sempre tão sereno.
Após o copo de água gelada que lhe esfriou o sangue, Fernando caminhou até a sala e sentou na velha poltrona com os joelhos doloridos. Em nova nota mental assegurou-se de escrever sobre a decadência física imposta pela velhice. Bastou esticar o braço e “Et maintenant” invadiu a sala. Baixou o volume para não acordar a mulher. Deixou Becau falando baixou e lamentou toda a nostalgia que vinha com a musica.
Fernando ocupou a sua mente pensando: “O que os vaga-lumes fazem de dia?”. E tentou não dormir. Fracassou.
Era o mesmo Fernando, só que sem as dores nos joelhos, caminhando num campo de lírios e vendo a tarde cair no horizonte. Por entre os lírios e os raios do sol poente, surge distante Patrícia Pillar. Não podemos dizer que ela estava nua, pois usava uma fita na cabeça. Ela acena para Fernando. Ele acena, timidamente, de volta. Tenta caminhar até ela, mas não caminha. Corre. Como há muito tempo não corria. E na corrida remoça. Como se cada passo lhe tirasse meia década das costas. Mas ela desaparece entre os lírios. Fernando espalha as flores desesperado. Nada. Ele lamenta não ter lido o que estava escrito na fita que Patrícia usava na cabeça. Mal se recupera do desapontamento e vê Luana Piovanni. Mesmo de longe, e já sem óculos que perdera na corrida, ele a reconhece. Quem não reconheceria? Semi nua. Ela sacode os longos cabelos à la Gilda antes de por o boné e acenar para Fernando. Ele nunca correu tão rápido. Já era jovem quando o sol o cegou momentaneamente, o suficiente para levar Luana. Novamente Fernando estava só naquele infinito campo de lírios. Fernando olha ao seu redor, atentamente, tentando encontrar Bruna Lombardi ou Maitê Proença. Quem sabe a Kim Novak? Suas pretensões estavam subindo e não eram só elas. Dessa vez Fernando tem certeza que alcançará qualquer uma que aparecer, mas já planeja acertá-las de longe com uma pedra só para atestar a materialidade. E depois é só puxar conversa. Mas nada aparece. Fernando continua sua caminhada solitária. Depois de algum tempo Fernando vê algo aproximar-se mexendo os lírios. O que seria ? Então ele enxerga boquiaberto. Uma perna. Sem corpo. Só uma perna. Branca. Lisa. De coxa robusta, que salta na direção de Fernando.
Ele acordou assustado e antes de lastimar-se pelo pesadelo freqüente que o atormentava, reclamou das dores nas costas. Não tinha mais idade para dormir naquela poltrona. Velho Fernando.
O dia seguiu as suas festividades de praxe. Velhos amigos o visitaram felicitando-o pela nova idade. Fernando sabia que eles estavam ali pra consolá-lo. “Pronto, pronto, envelhecer acontece com todo mundo.” Os antigos amigos da banda. Fernando tocou o seu velho sax, que ainda sabia sibilar com primazia. Tudo era velho em Fernando. Estava se enternecendo por ele mesmo e não sorriu durante todo o dia.
Ao fim do dia o sono veio naturalmente. Ele não temeu o misterioso sonho que o perseguia há noites, com aquela perna solitária e saltitante. Alguma coisa lhe dava a certeza de que nenhum sonho poderia ser pior do que do que a realidade que o cercava. Fernando sabia que estava vivendo o crepúsculo de sua existência.
E tudo correu como antes. Os lírios, o cair da tarde, Patrícia e Luana. Com a diferença que dessa vez Fernando conseguiu chegar suficientemente perto para ler “Diretas Já” escrito na fita que Patrícia usava. Novamente aparece ela. A perna solitária que assombra o sonho de Fernando. Ela salta em sua direção. Mas Fernando não acorda como das outras vezes. Não acorda, pois a reconhece. Sim é ela. Como não a tinha reconhecido antes. Era a perna da Silvana Mangano. Aquela coxa magnânima e macia que por tantos anos habitou os seus sonhos juvenis. Sua companheira fiel de puberdade surgia novamente em seus sonhos como que para resgatá-lo. Ela aproxima-se e começa a chutar Fernando que sussurra extasiado:
“Devagar, devagar.”
Ele acordou sorrindo.

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