Jair Francelino Ferreira
Verissimo dirigia-se à cozinha para um assalto noturno à geladeira, quando, ao passar pelo escritório, estranhou a luz acesa. Abriu a porta lentamente e deparou-se com uma figura familiar, de silhueta ovalóide, que escrevia ao computador. Aproximou-se com cuidado, impulsionado pela curiosidade de ler o que o outro escrevia. Não conseguiu ler o texto, mas reconheceu a assinatura: “Luiz Fernando Veríssimo”.
Luiz percebeu que havia alguém às suas costas e virou-se. Encararam-se. Verissimo recuou, com uma interrogação nos olhos. O outro sorriu.
– Não se reconhece? Eu sou você. Mais precisamente, o seu alterego romântico...
Verissimo se deu conta da situação absurda que estava vivendo, mas, como já tinha conversado até com seu próprio fígado, nada mais o surpreendia. Talvez fosse um desses sonhos simbólicos que tentam nos ensinar alguma coisa, como por exemplo desistir de uma vez por todas de começar dietas que não vão além da madrugada. “Isso é que dá ir dormir com fome”, pensou. Achou melhor manter a calma e agir com naturalidade, enquanto não acordava.
– Ram-ram... Mas por que resolveu se separar de mim? Nós formávamos uma boa dupla...
– É, como Batman e Robin. Você sempre no comando, me tolhendo, me controlando, corrigindo as minhas “bobagens”, os meus “excessos”, cobrindo tudo com suas ironias, com sua visão crítica e “bem-humorada” das pessoas e dos fatos.
– Pra nos proteger. Evitar o ridículo.
– Mas o ridículo é que é autêntico. Eu sou o verdadeiro você!
– Se não me engano, eu já escrevi um texto reconhecendo isso...
– Aquilo foi um golpe de mestre. Escreveu, mas ironizou, fez piada, ridicularizou o rídiculo!.
– É que já temos quase setenta anos, não fica bem excessos de romantismo em nós, esses idealismos, esse arroubos adolescentes.
– As pessoas acham meus textos lindos, identificam-se com eles; sou um sucesso na net. E não há idade para o amor. Temos que nos entregar a ele em sua plenitude, nos permitirmos a felicidade, a alegria de viver como coelhinhos saltitantes nas pradarias!
Isso explicava a profusão de textos hiperglicêmicos que infestavam a internet com a autoria atribuída a Verissimo. Uma lembrança terrível, porém, lhe ocorreu:
– Não me diga que foi você que cometeu aquele “Um dia de m...”!?
Luiz ofendeu-se, só escrevia textos românticos, com mensagens positivas, não tinha nada a ver com aquela escatologia.
– E o “Dar não é fazer amor”? – gemeu Verissimo.
– Te fresqueia! Tá pensando que eu sou alguma Noemi? Eu sou um alterego romântico, mas macho.
Verissimo respirou aliviado. Bom saber que nem seu alterego seria capaz de certas coisas, embora isso significasse que o mistério não estava de todo esclarecido... Mas porque ele assinava “Luiz” com z e “Veríssimo” com acento? As pessoas mais perspicazes percebiam a farsa só pela assinatura...
– Porque esse é o meu nome! O nosso nome. Você é que é uma farsa. Uma piada. Um escritor cujo nome artístico é o mesmo da carteira, com um s no lugar do z.
– É o correto gramaticalmente...
– Mas então por que não põe os acentos? E desde quando o “gigolô das palavras” passou a se preocupar com a correção gramatical?
– Mmf...
– Não precisa responder, eu sei o motivo verdadeiro. Final dos anos cinqüenta. Brasil campeão do mundo, início da bossa nova, e nós passando o verão no Rio. Tudo era festa. E ficou perfeito quando ela apareceu: os cabelos negros caindo em cascata sobre os ombros, em contraste com o verde profundo dos olhos; os dentes alvos emoldurados por lábios carnudos, que se abriam num riso franco; os seios túmidos se insinuando sob a blusa semitransparente... Zilah! O nome, que continha uma interjeição exclamativa, refletia bem o alvoroço que ela provocara em nosso coração. Foi amor à primeira vista! E, inacreditavelmente, ela correspondera. Fizemos planos. Eu e você trocaríamos Porto Alegre pelo Rio, o Inter pelo Botafogo. Ela queria ser cantora. Nós a acompanharíamos com nosso sax pelos bares e boates da cidade maravilhosa, incorporando o balanço do jazz à bossa nova. Seríamos (ela e nós) a continuação um do outro, como os zes dos nossos nomes sugeriam. Nos despedimos com juras de amor eterno. No verão seguinte, consegui vencer sua hesitação e voltamos dispostos a vivermos um grande amor. Ela estava ainda mais linda. Achou o nosso rosto vagamente familiar, mas nem se lembrou do nosso nome!. Você me culpou pelo ridículo que passamos e, aproveitando-se da minha fragilidade momentânea, assumiu o comando. Escreveu um texto engraçado sobre o assunto – o primeiro da série ironizando os amores de verão – e baniu o z do seu nome, por considerá-lo o símbolo do nosso vexame amoroso.
A conversa estava ficando perigosa, d. Lúcia poderia acordar. Verissimo acho melhor mudar de assunto. Citou a comunidade de fãs dele no orkut, com mais de cem mil participantes, e especialmente um grupo de abnegados que travavam uma luta inglória mas divertida, para combater o “Luiz”, ou o “Falsíssimo”, como eles o chamavam.
– Mas são só uns dezessete gatos pingados. Para cada um desses, há milhares que me adoram, colocam meus textos nos seus blogs e sites, enviam-nos por e-mails e nem sequer leram um único livro seu. Até na comunidade a que você se refere existem mais admiradores meus que seus.
Veríssimo, com tristeza, teve que concordar. Infelizmente a internet era o paraíso dos textos melosos, das falsas autorias, dos leitores superficiais, sem senso crítico. Mas um dia tudo isso haveria de mudar. Os gatos pingados se reproduziriam, os políticos teriam mais responsabilidade, o povo teria mais acesso à educação de qualidade, aos livros...
– E seremos felizes para sempre?...
– Ironia, não! Ironia, não! – esbravejou Verissimo, perdendo a paciência. E, num gesto de autodefesa, sufocou novamente seu alterego romântico.
25 abril 2006
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Um comentário:
Que texto legal!
Manteve a leveza do Verissimo, utilizou varios dos seus recursos de estilo e fez muito bem uma das coisas que eu acredito serem a chave do sucesso do nosso autor favorito: referências em vários níveis. Quem é da comunidade morre de rir, porque sabe da velha briga sobre romantismo, e quem não é continua achando divertido. Cinco estrelas, na minha opinião. Parabéns, ______(juro que sei quem é. Vou mandar meu palpite pra Deizi pra ela revelar depois).
Abraços.
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