Luís Augusto Marcelino da Silva
Eu nunca imaginei que sentiria medo no primeiro vôo. Deve ser porque sempre fui convicto de que jamais embarcaria numa roubada dessas. Mas não teve jeito. Tia Clara morreu de morte morrida em Salvador. E foi ela quem me criou, não dava pra simplesmente mandar os pêsames para o seu casal de papagaios (Herbert e Hanna) e não comparecer ao enterro. Disseram que seriam apenas duas horas de viagem. Eu acreditei.
Poltrona 34. "Não tem lugar pra fumantes?" - perguntei. A comissária me explicou que não existia mais área para fumantes. Retruquei que não entendia por que então ainda havia sinalização de não-fumantes na cabine. Ameacei baforar no banheiro. Ela deu um sorriso amarelo e virou-me as costas.
Também acreditava que toda aeromoça fosse bonita. Não era o caso, pelo menos naquele vôo. Magras de dar dó, coitadas. Eu sempre gostei de mulheres carnudas (não gordas, mas carnudas), com os quadris largos, pernas grossas e seios médios (seio médio é algo que se situa entre os peitos da Rita Lee e os da Fafá de Belém). Quase tudo ao contrário em Roseli e Verônica.
Antes da decolagem minhas mãos começaram a suar. Não consegui manter o sangue frio, porque me pareceu que ele já congelara. Meu estômago parecia acomodar um imenso iceberg. Senti vontade de segurar a mão do senhor de óculos, gordo, que estava do meu lado. Mas achei que não cairia bem. Afinal, tinha uma imagem a zelar. Eu e ele, creio.
"Senhores passageiros... blá, blá, blá..." Quando uma das aeromoças começou seu ritual de instruções para o caso de um acidente, eu simplesmente flatulei de medo. O senhor gordo da poltrona ao lado tentou disfarçar, mas não houve como segurar o gesto da mão abanando o nariz. Tirou os óculos. Ameaçou chamar a aeromoça, mas depois desistiu.
- É seu primeiro vôo, amigo? - perguntei.
- Não.
- Ah, entendi...
- Então já voou outras vezes, certo?
- Certo.
- Não gosta muito de falar, né?
Ele não respondeu.
Eu detesto gente que não gosta de falar. Talvez seja porque eu não consigo ficar em silêncio um minuto sequer. Minha mulher diz que eu tenho duas coisas descontroladas: o intestino e a boca (tanto pra falar quanto para comer). Pode até ser, mas realmente não me conformo com esse tipo de gente que despreza uma conversa. Era o caso do gordo. Mas eu não desistiria assim tão fácil.
Ele lia um livro que não deu pra eu ver o título (até porque me pareceu que ele tentava escondê-lo do alcance da minha vista). Eu tentava espiar uma ou outra página, mas não conseguia enxergar nada.
Verônica trouxe os lanches: dois pra ele, um pra mim. Desconfiei. No mínimo se tratava de alguém importante. É, o gordo tinha cara de advogado, de engenheiro de estatal ou coisa que o valha. Não me segurei:
- Faz o que da vida, chefe?
- Como.
- É, isso eu percebi.
- E viajo - completou o homem.
- É aposentado, então... vou me aposentar no ano que vem. Mas vou continuar trabalhando. Sabe como é, né?...
- Não, não sei.
Ele apertou o botão para chamar a comissária. Quem veio foi Roseli. Ele cochichou algo pra moça. "Vou ver, vou ver seu Verissimo...". Logo concluí que o canalha pediu pra mudar de lugar. Aquilo era um insulto, quem ele pensava que era? Verissimo, Verissimo... eu tinha ouvido falar de uns Verissimo lá do Sul, mas minha memória é péssima.
- Por acaso você é pai daquela atriz...
- Não, não sou.
- Dizem que ela é sapata, mas sei não... um baita mulherão daquele! Vai ver não conheceu uns caras mais experientes assim como nós, né? - dei-lhe uma suave cotovelada e seu livro caiu.
Ele não respondeu.
Levantou-se e foi ao banheiro. Chamei Verônica (a que tinha os seios maiores). Ela fingiu que não ouviu. Roseli passou pelo corredor e não teve como escapar de mim. Perguntei quem era o cara. "Você não conhece o Luis Fernando Verissimo? É escritor. Gaúcho. Colorado até a morte, dizem..."
Céus! Sabia que conhecia o cara de algum lugar. Peguei o celular pra ligar pra Rita de Cássia, minha patroa. Roseli franziu a testa e disse que era proibido ligar. "Mas peraí, minha mulher é fã do cara. Ele tem que dar um dedinho de prosa com ela. Isso se não... ei, peraí, ele não pediu pra sair dessa poltrona, pediu?"
Em seguida a voz do comandante anunciou uma turbulência prevista para dali a cinco minutos. "Todos aos seus lugares" - ordenou. Eu pensei com meu zíper: "Se f..., se f... vai ter que continuar do meu lado." E, de fato, lá estava ele na poltrona vizinha. Cara e livro fechados. Apertou o cinto.
- Pode me dar um autógrafo?
- Sim.
- Peraí. Tó! (dei-lhe um guardanapo usado). É pra Rita de Cássia. Com amor. Não, com amor não. Com carinho. Pensando bem... "Pra Rita de Cássia e só"!
Ele até que tentou escrever, mas a turbulência o interrompeu.
- Sabe, a Rita de Cássia adora seus livros.
- Verdade?
- Compra todos. Quer dizer, lê todos. Pra dizer a verdade, acho que só comprou um. O resto ela copiou da internet.
- Ah, sim... - respondeu, ressabiado, o gordo Verissimo.
Eu já tava desistindo de puxar assunto com aquele cara. Droga, nunca tinha visto alguém assim tão calado! E, afinal de contas, quem ele pensava que era? Aliás, pra mim, ele não passava de um borra-botas. Se dependesse de mim morreria de fome, pois eu jamais compraria um livro dele. Eu gosto mesmo é do Sidney Sheldon!
- Qual livro ela gostou mais, senhor? - para minha incredulidade, ele perguntou.
- Aquele do mago...
- Mago?
- "Diário de um mago". É foi esse. Ou foi "O Alquimista"? Um desses dois (tenho uma memória péssima).
Ele não respondeu.
25 abril 2006
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