Elizabeth “ Betinha” Cordeiro Fernandes
- Tô com tanto medo, Hannah.
- Larga de ser babaca, Inaraê, vai ser tudo beleza. Lá vêm eles, abre a porta. Não fica histérica, papai e mamãe podem estar acordados e esse hotel é um túmulo depois das onze.
- Pô, nunca imaginei que fosse ver tão perto.
- Senta naquela cadeira, muita tietagem pode queimar nosso filme. Abre passagem. Isso, Bacalhau, põe aqui no sofá.
- Mercadoria entregue, meninas, venho pegar daqui a uma hora, foi o combinado.
- Combinadérrimo. Depois levo teu bilhete pra Leidineusa, ela vai amar. Agora zarpa.
- Hannah, ele é a cara do boneco!
- Que boneco?
- O da capa dos livros. Mesma boca, mesmos óculos e mesma fofura. Dá até vontade de apertar as bochechinhas.
- Deixa a vontade pra depois e vamos ao trabalho. Tudo bem aí, Luis Fernando?
- Tá com cara de espanto, Hannah.
- Só pode, você fica dizendo que quer apertar isso e aquilo. Tá tudo beleza, viu, Luis Fernando?, todo mundo aqui é do bem.
- Que é que tá acontecendo, onde estou?
- Aceita um pouco de limonada? A gente pensou num vinho francês, tipo banquete com os deuses, mas ia ser difícil comprar, a dona da Paz é muito econômica, tá ligado?
- Deixa de papo, Inaraê, ele não precisa saber as qualidades da mamãe. Mexe bem e taca mais gelo, o hotel é um forno.
- Tome, seu Verissimo, fiz com dois limões que peguei no enfeite do restaurante, e com casca e tudo, deve estar beleza.
- Que é que você aprontou, Inaraê? Olha as caretas dele.
- Putz, esqueci o adoçante! Mas o senhor pode apertar o nariz, é assim que engulo uma droga de xarope quando caio doente.
- Deixa ele. Vai que toma e trava as idéias, fica sem nexo na cabeça e como vai escrever?
- Caraca, tanto trabalho e seu Verissimo nem aí.
- Tem alguém batendo na porta e pelo jeito é o papai! Tá vendo, Inaraê, o resultado de sua limonada azeda?
- Hannah, que está acontecendo? Já é quase meia-noite!
- Nada não, pai, Inaraê tá naqueles dias, TPM, fica nervosinha e liga a TV no maior volume, entendeu?
- Vou mandar sua mãe trazer um dos calmantes dela.
- Precisa não, seu Brasa, tomei um comprimido e tá melhorando. Eu ia mesmo desligar a TV.
- Vão dormir. Se fizerem mais barulho eu volto pra acertar as contas.
- Tudo bem, seu General João Brasa, pode deixar, a gente vai cair no sono.
- General! Onde estou?
- Esquente não, Luis Fernando, de brasa, o papai só tem nome e nem é general, é Tenente-Brigadeiro da Força Aérea. Um brigadeirinho de nada. Fala cada história mas acho que é tirando onda, essas mentiras que os homens contam. Ele só dá medo quando não entende minhas idéias.
- Mas finalmente, que é que estou fazendo aqui? O que vocês querem?
- Nem pense que é seqüestro, pelo amor de Deus, seu Verissimo. A gente não quer dinheiro, é só uma entrevista né, Hannah?
- Tá falado. Negócio seguinte, a professora de Literatura, uma chatonilda, teve a primeira grande idéia na vida, levou umas comédias pra se ler na escola e mandou a gente entrevistar alguém muito, muito...
- Muito maneiro, fofo, inteligente, que escreve até melhor que a dona Capitu, a tal professora de Literatura.
- Deixa de babação, Inaraê, ele já tá ligado que a gente é superfã. E não precisa revirar os olhos que nem eu faço com a mamãe, Luis Fernando, a gente só vai fazer umas perguntinhas pra entregar à dona Capitu. Mas capricha que eu tô precisando de uns pontos.
- Quem são os sujeitos que me trouxeram?
- O Bacalhau...
- Quem?
- O mais fortinho. É campeão de halterofilismo e o outro, com a tatuagem de dragão na cabeça raspada, é Piaba, irmão dele.
- Mas pareciam tão diferentes.
- É que são irmãos de galera, entende, seu Verissimo?
- Uma sorte, Luis Fernando, o papai quis vir neste final de semana por causa da feira de livros. Sorte e idéia, estamos aqui. A gente leu a programação, daí levei um plá com Bacalhau, que tá azarando uma garçonete do hotel, a gente se entendeu, ele convidava você pra vir aqui e em troca...
- Não recebi convite nenhum. Quando fui saindo do jardim que tem a estátua de um diabo, o grandão foi logo me pegando pelo braço junto com o outro, um de cada lado, e quando perguntei...
- É o jeitão dele, Luisinho, esquece. Bacalhau tem aquele tamanho mas é sangue bom.
- Vocês podiam ter ido à coletiva que fiz hoje de manhã, eu responderia com todo prazer.
- Cá pra nós, Luisinho, cê acha que aqueles seguranças iam deixar duas garotas, alunas de dona Capitu, fazer entrevista particular? Ah, qualé?, cai na real, mano.
- Vambora com a entrevista, Hannah, daqui a pouco Bacalhau volta.
- Tá bom, tá bom. A gente bolou umas perguntas tipo você gosta de seu trabalho? Se não fosse escritor ia ser o quê? Você é cliente do analista de Bagé? Dá pra passar bem de escritor no Brasil? Por que Verissimo não tem acento no I, é uma exclamação? E outras. Vem responder nessa mesa, tá bem colada, não sai do lugar. Não tem gravador, jeito que teve foi emprestar papel e caneta da recepção.
- É verdade que o senhor é baterista?
- Não, Inaraê, ele gosta é de soprar, acho que trombone, quando toca jazz em Porto Alegre. Só de zoeira.
- Mas seu filho é roqueiro, num é?
- Isso aí, bróder, mas deixa ele se concentrar ou não vai ter resposta que preste.
- Caraca, quando dona da Paz souber que a gente levou um papo com o seu Verissimo, vai comprar todos os livros que faltam pra coleção.
- Que viagem, Inaraê, a mamãe coleciona os livros do Paulo Coelho e já leu todos. Não vê o jeito dela?
- Pronto, garotas, respondi no melhor estilo que a paciência deixou.
- Dá licença pra uma olhadinha? É, tá bom, mas o senhor não explica por que o nome tem exclamação.
- Isso a gente descola, Inaraê. Vai que a mãe dele teve mais imaginação que a minha, que inventou os dois N no meio e um H em cada ponta de meu nome pra dar...
- Um som oco que nem os neurônios dela, já sei, Hannah. Pô, o Bacalhau enfiou o bilhete por baixo da porta, é o sinal.
- Que pena, Luisinho, a gente vai dispensar você. Mas antes umas fotos. Pega a máquina digital do papai, Inaraê, caiu no box quando eu tava pegando uma chuveirada mas acho que ainda funciona.
- Tá bom de fotos, garotas, sou um pouco tímido. Outro dia, quem sabe, vocês me reencontram. Em uma coletiva, por favor. Dá aqui um beijo, cada uma.
- Ah, seu Verissimo, foi tão maneiro, acho que nem vou lavar meu rosto por um mês.
- Não repare, Luis Fernando, minha amiga é tipo assim, histérica. E vocês, Bacalhau e Piaba, cuidem bem dele, não precisam mais arrastar pelo braço.
- Tchau meninas, foi uma noite e tanto.
- Foi uma tremenda orgia, Luisinho, valeu.
- Acho que hoje não durmo de tanto agito.
- Menos, Inaraê, amanhã a gente tem de pegar o outro escritor, o tal da carreira, e vai ser o mesmo esquema.
- Tô cá pensando, o que é orgia, Hannah?
- Sei lá, a mamãe não deixou que eu comprasse o livro do Luisinho, o que leva esse nome, mas deve ser uma coisa muito legal. Vambora dormir que o sono me pegou.
19 abril 2006
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