04 dezembro 2006

TEXTO 1

COMPLEXO, FILOSOFIA, ESSAS COISAS...
( Diego Tavares)


Poucos sabem, mas o Analista de Bagé era pra ser garçom num restaurante francês. Desses que ficam na França, mesmo. Mas acabou seguindo a carreira de analista depois de conhecer um bagual austríaco que fazia jus aos fundadores do Rio Grande. E foi durante sua passagem na Europa que o caso se sucedeu.
Pois contam que quando o analista passeava pela Dinamarca, fez amizade com todo o reinado. Foi então chamado pra tratar de um bagual que não se aquietava com os rumos do mundo.
Apesar dos métodos pouco ortodoxos, o analista se diz "freudiano barbaridade". E por ser freudiano, não abriu mão de tratar o vivente em um consultório.
Como Lindaura ainda se encontrava nos Pampas (nessa época, ela era ainda uma chinoca em criação), o analista orientou os que ficaram fora do consultório no sentido de não interromperem a consulta, a não ser em caso de ouvirem um móvel quebrando.
Acharam grosso da parte do analista receber o vivente com um joelhaço, mas, como diz o analista, "grosso é o intestino, que vive dando cagada."
- Buenas. Te deita no divã.
- Ai...
- Aceita um mate?
- Um quê? Hm... er, melhor não, obrigado.
- Oigalê, bicho xucro. Agora, desembucha.
- É o mundo.
- E qual o problema do mundo, índio velho?
- O mundo é injusto, doutor! Injusto, me ouviu? Tô deprimido, doutor! Doutor, quer olhar pra mim, por favor? Eu quero saber que você se importa.
- Mas eu me importo, ô bagual.
- Doutor, é essa efemeridade da vida que me angustia. É a condição humana, entende? Essa impotência que me mata. Veja você, esses dias mesmo meu pai morreu, doutor!
- E tu sentiu atração por tua mãe e decidiu casar com ela?
- Não, não...
- Complexo de Édipo pelo menos tu não tem, indio velho. Agora te fresqueia e me diz: o que tu sentiu quando teu pai morreu?
- Angústia, doutor. Depressão. Não queria continuar vivendo. Não quero ainda. Ou quero. Ser ou não ser: eis a questão, doutor.
- E por que você quereria morrer, bagual?
- Não sei. Há mais coisas entre o céu e a Terra, doutor, do que supõe tua filosofia.
- Hamlet, você refletindo sobre a vida é pleonasmo. Não há nada nesse mundo que Freud não tenha explicado. Agora, olha pela janela e veja o tamanho do teu reino. Isso tudo aqui, um dia, vai ser teu. Me diz se isso é motivo pra tristeza?
- Mas, doutor... e a condição humana?
- Larga de paranóia, ô bagual. Tu não tem nada.
- Não?
- Não. E se tiver uma recaída, já sabe...
E ameaçou dar um joelhaço. "

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