15 dezembro 2006

TEXTO 10

JULIDALVA E ROMOACIR
(Guaraci Rodrigues)

Em uma cidade qualquer do interior, dois jovens se apaixonaram. Mas as famílias dos dois eram velhas concorrentes do comércio local e foram contra o namoro.
O rapaz, que todas as noites era recebido na janela da casa de sua amada e saía pela manhã antes que lhe vissem, se encontrava agora lamentando com ela o triste enredo desta
história.

Romoacir - Ó doce Julidalva, cujos encantos me trouxeram a este infortúnio, meu coração sofre por não termos a aprovação de nossas famílias ao nosso matrimônio, que triste história os poetas cantarão sobre nós se não pudermos convencê-los?

Julidalva - Se o que aprendi em meus parcos anos de vida estiver correto amor meu, este dia nunca chegará, pois a cidade tem dois supermercados, duas farmácias, dois postos de gasolina, duas lojas de roupas, duas funerárias, duas bancas de revistas e em tudo o mais que houver em dobro nessa cidade, nossas famílias serão concorrentes, assim nosso amor ficará restrito a esse quarto escondido de todos, findando ao amanhecer quando o apito dos dois laboratórios de inseticida de nossas famílias se fizer ouvir acima do apito do guarda noturno.

Romoacir - Por teu amor tenho suportado tudo, mas se o destino nos obriga a mantê-lo escondido, breve não terei mais forças para carregar esta escada toda noite, para entrar na tua janela.

Julidalva - Poderias talvez, vir sem ela já que meu quarto é no térreo, mas deves ter outra idéia em mente, dize-mo depressa, pois anseio por uma solução que dê fim a esse litígio.

Romoacir – Sim minha amada, resolvi hoje mesmo procurar por frei Lourenço que certamente se compadecerá de nós e achará uma solução para nossos anseios.

Julidalva – Pensaste bem, luz da minha existência, frei Lourenço é tão casamenteiro, que poderia se chamar Antonio, vai, procurai a sua sábia opinião.

Mais tarde, em sua cela no convento, frei Lourenço com dificuldade abriu os olhos e viu Romoacir sentado a seu lado.

Frei Lourenço - Arggghh! Perdoai-me senhor por beber escondido o vinho da sacristia e afastai de mim estas visões horríveis.

Romoacir – Meu querido frei Lourenço, venho pedir-lhe em confissão que busqueis uma solução para o meu coração que sangra por uma donzela.

Frei Lourenço - De novo!? De que "P" de família é ela agora? Dos Poetas, dos Pilar ou dos Piovanis?

Romoacir – Não, meu bom frei, a flecha de Cupido que atingiu meu coração tinha o nome Capuleto gravado em sua ponta.

Frei Lourenço - Valei-me os céus, não poderia ser outro o destino desta flecha? Que posso fazer para sufocar este amor em corações tão jovens?

Romoacir - Confio que arranjareis um modo de transformar nossa angústia em felicidade, porque és estudado em ervas mágicas e tens o dever jurado de só fazer o bem sem ver a quem.

Frei Lourenço - Nada posso fazer; se seus pais souberem que os ajudei, não precisarei mais levantar a batina para urinar, bastando abaixar-me. Não vejo solução para este infortúnio dentro desta vida terrena.

À noite, retornando ao encontro de sua amada, Romoacir contou a Julidalva o que frei Lourenço dissera.

Julidalva - E agora, o que será de nós se nem dos céus temos apoio, como acreditar no futuro, o que faremos?

Romoacir - O pensamento na morte me é mais doce do que viver sem que estejas ao meu lado, oh dor! Porque eu tinha de ter o nome Montecchio enquanto tu te assinas Capuleto, Porque carregar este fardo que nem escolhemos. Um nome! Ora o que é um nome?

Julidalva – Sim, qual a importância se de nascemos da família A ou B, acaso chafurdando na lama, uma porca ficaria perfumada se a chamássemos por outro nome?

Romoacir – Eu havia pensado em rosas, mas a analogia da porca também serve! Mas então o que faremos minha amada?

Julidalva - Vamos fazer um pacto de morte, tomemos veneno então, assim nossos familiares saberão que o capitalismo selvagem e a febre pelo poder, causaram nossa morte e carregarão este fardo pelos restos de suas vidas burguesas.

Romoacir - Sim, meu doce amor, levemos nosso amor até as últimas conseqüências, amanhã à noite nos encontraremos no muro atrás do cemitério para consumar este ato.

Na noite seguinte, os dois jovens se encontraram sob o muro do cemitério da cidade levando cada um, uma garrafa com inseticida e após juras de amor eterno no outro mundo, os dois beberam o inseticida com a marca das respectivas famílias.
Acontece que o inseticida bebido por Romoacir, tinha o prazo de validade vencido e era de baixa qualidade, (o pai era conhecido por batizar alguns produtos) e ele não morreu. Quando o grupo de busca chegou até os amantes, encontrou Romoacir roncando e Julidalva sem respirar.
Ao saber do pacto de morte e que o mesmo não tinha sido cumprido por Romoacir, a população da cidade se revoltou e acusou o velho Montecchio de ser culpado por ter adulterado o inseticida e pela conseqüente praga de insetos que assolava a cidade e a família teve de fugir, deixando tudo.

Romoacir tornou-se um paria, andava sem rumo, maltrapilho refugiou-se no álcool, sobrevivendo de esmolas, carregando sempre no bolso a garrafa com o resto do inseticida fabricado por sua família, procurando coragem para um dia ingerir o líquido, que negara a sua passagem para além.

Muitos anos depois, certo de que já o tinham esquecido, Romoacir voltou à cidade e quase não a reconheceu.
Havia mudado muito, no lugar onde antes havia a casa dos Capuletos era agora um prédio enorme com um nome em letras douradas se destacando das paredes em mármore, Shopping Center JULIDALVA CAPULETO.
Surpreso pela descoberta, Romoacir caminhou um pouco mais, e verificou que todo o comércio da cidade tinha o nome dela, desde a mais humilde sapataria, até a galeria mais chique.
Com lágrimas e o remorso por não ter morrido com sua amada naquela noite, Romoacir quase foi atropelado por uma limusine dourada, que freou em cima dele.
A porta do carro se abriu e dela saiu... Julidalva.

Romoacir - Ai de mim, que meus olhos agora se deixam levar pelos desejos de minha mente! Estou vendo o fantasma do meu amor, que vem me cobrar porque não estou ao seu lado no paraíso!

Julidalva – Ora, ora, ora... Quem é vivo sempre aparece. Se não é o meu ex-amante em carne e osso, mais osso que carne, pode-se dizer e precisando de um banho de loja, além de um convencional de água e sabão!

Romoacir - Mas, se não és um espírito, és mesmo a mulher pela qual meu coração se tortura até hoje, como sobreviveste, se eu mesmo vi que jazias ao meu lado junto ao muro do cemitério?

Julidalva - Ô mané, te toca! Frei Lourenço me deu uma droga que me fez parecer morta.

Romoacir – Frei Lourenço? Mas porque ele não me disse, porque me deixou enganar e carregar este fardo por tantos anos?

Julidalva - Porque prometi sociedade no meu império comercial, ora! Transformei a área onde ficavam os negócios de sua família em zona de meretrício e ele é o gerente dos meus negócios por lá.

Romoacir - Mas e o nosso amor, que era fonte de inspiração de poetas?

Julidalva - Mas você é realmente muito burro para acreditar naquilo! Eu apenas usei você para tirar sua família do caminho que estava me impedindo de ser dona da cidade.

Romoacir - Nãooo! Sofri todos estes anos por não vos ter acompanhado em sua viagem final, tornei-me um farrapo humano, andando em andrajos, perguntando-me porque Deus havia levado a ti e quanto a mim, poupado da morte desejada.

Julidalva - Foi meu único erro, eu mesmo devia ter levado o inseticida, mas você trouxe aquela porcaria que seu pai fabricava e frustrou um pouco meus planos, era pra você ter morrido, mas no final deu tudo certo.

Romoacir - Meus ouvidos me enganam e meu coração sangra. Saia do corpo de minha amada, demônio!

Jogando a cabeça para trás, Julidalva deu uma gargalhada e respondeu:

Julidalva - Ora Rôrô, não sou um demônio, apenas eu soube aproveitar a oportunidade que subia a minha janela. Se você não fosse tão idiota acreditando na existência do amor, hoje, em vez da sarjeta estaria em uma limusine dourada, igual a minha!O capitalismo é selvagem meu caro, quem não mata pode ser morto e tudo é permitido para eliminar um concorrente.
Mas, você está me atrasando, tenho que ir inaugurar o novo estádio de futebol da cidade, o JULIDALVÃO.

Romoacir sentou no cordão da calçada com a cabeça entre as mãos, chorava copiosamente enquanto Julidalva gargalhando, entrava em sua limusine dourada e saía cantando os pneus.
E o som das gargalhadas ainda se ouvia na rua durante a madrugada, quando um homem maltrapilho, foi visto se arrastando em direção ao cemitério, ia cabisbaixo, e em uma das mãos uma carregava uma garrafa com inseticida.

Este é o final desta história, mas existe outra versão que diz que em sua segunda tentativa de se suicidar, Romoacir também não foi feliz porque para tornar o gosto do que restou do inseticida fabricado pela sua família menos desagradável, misturou um pouco de suco laranja nele e quando acordou depois de passar a noite tendo sonhos delirantes olhou em volta e disse:

Romoacir – PÔRRA MEU! Esse inseticida não mata as baratas, mas dá o maior barato!

Passou a misturar a droga e vender, inicialmente na zona de meretrício, depois nos demais bairros e logo se tornou o rei do tráfico, ficou muito rico e nada era feito na cidade sem ordem dada por ele, sendo respeitado não só pelo seu poder, mas por ter se de tornado um benfeitor na comunidade, ajudando aos menos favorecidos e salvo um incidente com um ex-padre que depois disto era visto vez por outra fazendo xixi de cócoras, mostrava-se um cavalheiro, incapaz de matar um inseto; seus homens portavam armas pesadas, mas tinham ordem para atirar só em limusines douradas.

Ou então, ou então! Esta história e consequentemente esses finais, nunca existiram, foram adaptadas e plagiadas de Dalva e Moacir e Romeu e Julieta escritas por Luis Fernando Verissimo e Willian Sheakspeare por um fã que tentava se classificar em um concurso de contos na comunidade do primeiro.
Mas esta versão não parece ter muito sentido, seria preciso comprar os votos de 115.000 membros da comunidade com muita bajulação e inflação de egos para conseguir alguma coisa.E mesmo, quem seria tão vil a ponto de praticar tática de tamanha baixeza?

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