DA ARTE DE WILLIAM
(LUIS AUGUSTO DA SILVA, ou Guto Surfistão. )
1º ATO
Luz (estilo DOI-CODI) sobre LFV, que está amarrado a uma cadeira, com as mãos para trás. No fundo do palco, a sombra do fã, que reflete a silhueta de Hamlet. Ao fundo, a música tema de Tubarão.
FÃ - Por que a sua fixação pelo número 17?
LFV - Não é fixação.
FÃ - Então o que é? Não vem não. Tem que ter uma explicação.
LFV - Não é fixação. Quando vai me soltar?
FÃ - Calma, calma. Temos tempo. Muito tempo. Vamos logo! (dá uma baforada no cachimbo)
LFV - No primeiro texto que eu escrevi tinha que usar um número. Aí veio o dezessete na cabeça. Daí em diante, sempre que precisei usar um numeral, optei pelo 17 para não perder tempo pensando em algum outro. Isso quando fazia sentido usar o dezessete, é lógico. Eu não podia usar "os 17 cavaleiros do Apocalipse", por exemplo.
FÃ - Hmmmmm...
LFV - Estou com fome.
FÃ - Pão com ovo se quiser.
LFV - Gema mole, por favor.
2º ATO LFV foi desamarrado, e ainda está sentado. Devora o pão com ovo como se não comesse há dias. Depois toma dois largos goles de Dolly, deposita o copo sobre uma pequena mesa e arrota. Quem o interroga agora é uma mulher, travestida de Julieta (com enchimento nos peitos e tudo), apesar que também tem a sombra refletida no fundo do palco.
FÃ 2 - Você pensa que me engana, mas pode tirar o cavalinho da chuva. Sei que se faz de tímido, mas no frigir dos ovos (neste momento o contra-regra imita o som de um ovo sendo quebrado na borda da frigideira)... tô sabendo que você não passa de um garanhão. Ou melhor: de um velho caquético metido a garanhão. Você é louquinho pra Luana sair na Playboy, né véio tarado?
LFV - Tu o disseste.
FÃ 2 - Agora vai ter que confessar. Patrícia Pillar, Patrícia Poeta ou Luana Piovani. Hein, hein?
LFV - As três...
FÃ 2 - Juntas?
LFV - De preferência.
FÃ 2 - Não falei que ele era tarado, gente?
3º ATO O autor está com as mãos livres, mas encapuzado. Os três seqüestradores se preparam para libertá-lo. Ele pede uma taça de vinho. A fã 2 vai buscar um garrafão de Sangue de Boi. Enche o copo americano. O fã 3, na falta de dinheiro para comprar uma fantasia adequada, simplesmente botou uma faixa no peito com a inscrição “Otelo”. Loiro de olhos azuis, esse Otelo.
LFV - Cordellan Bages. Safra 1997.
FÃ 3 - Sangue de Boi. Deixa eu ver se tem a data aqui. Cadê o rótulo? Xi, não tem rótulo...
LFV - Vão me soltar?
FÃ 3 - Antes, uma última pergunta.
LFV - Sim.
FÃ 3 - Setembro de 2006. Você recebeu uma cesta, confere?
LFV - Básica?
FÃ 3 - Não. Uma cesta de café da manhã.
LFV - Ah, sim. Eu estava de regime. Uma pena.
FÃ 3 - Leu o cartão?
LFV - Cartão? Tinha cartão?
FÃ 3 - Esquece. (Volta-se para os outros dois fãs) Ele não deu a mínima para os nossos textos.
LFV - Ah, sim. Estou lembrando. Eu li dois.
FÃ 3 - Dois?
LFV - Talvez três ou quatro...
FÃ 2 - Eu não acredito. Eu não A-CRE-DI-TO!
FÃ 1 - Crápula.
LFV - Peraí!... Não sou obrigado a ler qualquer coisa.
FÃ 3 - Estão vendo? Chamou nossos textos de qualquer coisa!
FÃ 2 - Eu não A-CRE-DI-TO... LFV - Bem, vão me soltar?
FÃ 3 - Pode ir embora, miserável! Eu tenho uma arma aqui. Você vai andar por 10 minutos sem olhar para trás. Se se virar, eu atiro.
LFV - Assim, com os olhos vendados?...
FÃ 1 - Problema seu. Se vira!
LFV - Então tá. Estou indo.
FÃ 3 - Peraí! Autografa esses livros aqui!
LFV - De olhos vendados?
FÃ 3 - Se vira.
04 dezembro 2006
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Um comentário:
Guto....
pelo menos então ele teria lido o meu...
Beijos
Gisa
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