26 dezembro 2006

TEXTO 11

OTELO - A VERSÃO DO AFOGADO
(Jair Francelino)

O ano é 1604. Otelo é encenado pela primeira vez. Todos assistem maravilhados. Quase todos. Ao fundo, o autor nota um senhor, já de bastante idade e estrangeiro certamente, balançando a cabeça negativamente o tempo todo. Terminada a encenação e depois de receber as bajulações de costume, Shakespeare se dirige ao velhinho para saber quem é ele e porque não gostou de sua peça. Ouve então - num inglês com sotaque, mas inteligível - uma história surpreendente.

***

- Mio nome é Fuggio. Fuggio Della Muort. E eu gostei da peça. Muito boa, bons atores, boa dramaticidade, etc. Mas é que não foi assim que aconteceu. E não me refiro ao conto italiano em que o senhor se baseou. Aquilo também era falso. E nem era boa Literatura. Falo da história real, aquela que quase nunca chega ao conhecimento da posteridade. Como eu sei? É porque eu estava lá, vivi aquilo tudo de perto... o senhor quer ouvir? Então sente-se que a história é longa.

Eu era o investigador do caso de il cornuto de Veneza. É, o general mouro. Como o senhor sabe, ao contrário do que ocorre em sua peça, Otelo não morreu na cena do crime. Nem Emília, aquela megera. Sim, eu sei, o senhor quis dar mais dramaticidade, condensar o texto etc. Va bene. Mas eu estou falando da tragédia da vida real. Ou comédia, tanto faz. Mas continuo. Desde o princípio desconfiei da versão da mulher do alferes. Aquela história de lencinho indo parar na mão do amante, sabe? Aquilo não era intriga de homem. E ela, presente na cena do crime, logo após o mouro matar a esposa? Ah, ali tinha coisa. Iago insistia que não havia inventado nada, que o mouro era mesmo cornuto, que Desdêmona não era a santinha que o senhor retratou. Se ela enganou o pai, porque não enganaria o marido? Umas dissimuladas, todas elas.

Resolvi tentar uma cartada definitiva. Seduzir Emília. Eu tinha um certo charme rústico. Sorrio pro lado. E ainda tinha dentes naquela época. Consegui domar a megera. Ela acabou se entregando. No duplo sentido. E me contou toda a história. Disse que tinha ficado injuriada com o casamento do mouro. Ela, literalmente, suara para que o general escolhesse Iago como capo di squadra. Mas o disgraciato, depois de se casar com a filha do senador, não queria mais saber da mulher de um simples alferes, e ainda escolheu Cássio para seu lugar-tenente. Fingiu-se então de amiga e passou a ser confidente da mulher do mouro. Descobriu que, antes de se encantar pela nerezza de Otelo, a sonsa já brincava de fazer “o animal de duas costas” com o soldado Rodrigo. E andava entediada com as ausências do marido, que quase não tinha tempo de desembainhar a espada em casa. Precisava arrumar um amante. Afinal o negrão era grande, mas não era dois... Cássio percebeu a oportunidade e ampliou suas atividades como substituto do mouro.

Emília incentivara o marido a delatar a traição ao mouro. Mas o general era do tipo corno São Tomé, só acreditava vendo. E Desdêmona era esperta, não deixava pista. Como sabia que os homens costumam gozar duas vezes - a segunda quando contam –, a esposa instruiu o alferes a obter a confissão de Cássio e desse um jeito de Otelo ouvir. O capo di squadra não se fez de rogado. Contou os detalhes sórdidos a Iago, entre gargalhadas, mas o mouro assistiu à cena de longe, não conseguiu ouvir direito o que falavam e, corno cético, ainda não acreditava. Emília então teve a idéia genial de furtar o lenço para fazer a intriga definitiva. O plano era perfeito. Iago se livraria de Cássio a mando de Otelo e ela cuidaria para que o Mouro fosse preso pelo assassinato de Desdêmona. Mas o incompetente do marido não conseguiu matar Cássio. E Emília resolveu então mudar de plano. Inventou aquela lorota da pureza de Desdêmona, inocentou Cássio e ferrou o marido.

Enfim, dera tudo certo, ela agora era amante do governador Cássio. Mas estava entediada, e me disse que se io me comportasse bene, deixasse a investigação de lado, poderia ficar numa posição bastante confortável. Realmente a posição era confortável, mas io era um homem da lei. Levantei meu rosto daquele par de seios fartos, livrei-me da chave de perna e disse “nada feito, ragazza, você terá que pagar por seu crime”. Ela jogou a cabeça para trás e gargalhou. “Que parte do ‘eu sou amante do governador’ você não entendeu?” perguntou-me, debochada. Vi que não conseguiria mais nada ali. Vesti minha roupa e saí, disposto a fazer justiça, mas fui emboscado por capangas de Cássio. Quase me mataram. Consegui escapar me jogando no mar. Mesmo ferido, cheguei até a Nápolis. E de lá fugi para Portugal. Soube depois que Otelo e Iago haviam sido mortos. Pensavam que io também tinha morrido. Afogado. E o caso fora encerrado. Fiquei desgostoso com tudo aquilo, resolvi fugir da civilização. Consegui embarcar num navio que ia para o Brasil, com uns padres que pretendiam fundar um colégio para catequizar os nativos.

Ajudei a construir o colégio de San Paolo. Montei o primeiro comércio na vila de Piratininga, que se formou ao redor do colégio. Meu principal produto era um pão achatado e redondo, coberto com queijo e o que mais estivesse à mão. Io tinha visto algo parecido em Nápolis. Lá eles chamavam de Picea. Io chamei de Maná. Não vinha do céu, é claro, mas como io roubava a farinha dos padres, era quase a mesma coisa, capisce?. Inventei uma receita especial, com cobertura de queijo, ervas e rodelas de tomate. Sim senhor, o tomate não é venenoso como pensam aqui na Europa. Lá na América, é muito apreciado. E minha criação fez o maior sucesso. Dei-lhe o nome de “Moatirita”, homenagem a Moatira, linda nativa que tinha aprendido pouco com a catequese, mas sabia direitinho o sentido do “crescei e multiplicai”. E entendeu perfeitamente o que io queria quando, inspirado em Salomão, falei-lhe de palmeiras, cachos e colheitas. Desse conhecimento bíblico, nasceu o pequeno Scapo, primeiro Della Muort brasileiro. E foi aí que começaram meus problemas. Os padres implicaram com minha devoção a Salomão e minha intimidade com as nativas. E não entenderam a homenagem no nome do pão. Acharam uma heresia. A gota d’água foi quando, na hora da comunhão, ao receber a hóstia, um nativo reclamou: “Não tem cobertura?”

Tive que fugir de novo. Desci a serra, cheguei a uma linda baía e me estabeleci entre os franceses, que dominavam a região e se davam muito bem com os nativos. Especialmente com as nativas, capisce? Mas um português resolveu fundar uma cidade com o nome de San Sebastian por aquelas bandas. Foi uma guerra feia, lutei ao lado dos índios e franceses. Perdemos a guerra, mas por ironia o tal de Estácio, figurão, sobrinho do governador-geral, morreu flechado igual o santo que deu nome à cidade fundada por ele. Io consegui voltar para a Europa, junto com alguns franceses sobreviventes. Soube que a versão de Emília havia virado literatura, um conto publicado por um tal de Cintio, que o senhor deve ter conhecido... E andei vagando, por aí, me metendo em confusões e fugindo, até chegar a Londres, onde terminei a minha fuga e tenho vivido pacatamente meus últimos anos. Vendo o sucesso de sua peça, sei que prevalecerá para sempre a versão de Emília, mas agora o senhor tem também a versão do afogado. Pode usá-la como quiser.

***

O velhinho se afastou lentamente. William ficou pensativo. Claro que não ia mexer em sua versão, ela era um sucesso. E aquela história de detetive mulherengo se metendo em enrascadas era engraçada, mas muito picaresca, um tanto inverossímil. Não era o estilo do momento. Já uma esposa maquiavélica, manipulando o marido para alcançar o poder, até que era uma boa idéia para uma história. Mas não podia ser em Veneza de novo, claro. Nem envolver mouros governadores de ilha. Mas, quem sabe, uma disputa por um reino. E um pouco de magia. Uma profecia!. Ah, e Emília também não seria um bom nome, parece nome de boneca, não ficaria bem para numa vilã. Macbeth? Isso! Lady Macbeth. E Shakespeare sorriu satisfeito consigo mesmo, já antevendo o sucesso de sua nova peça. Gênio, gênio.

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