VELHINHA DE STRATFORD-UPON-AVON
(Diego Tavares)
Como se sabe, existia uma velhinha em Stratford-upon-Avon que era a última pessoa na Inglaterra que acreditava. Acreditava, nessa ordem, na Revolução Industrial, na Igreja Anglicana e num escritor que, por coincidência, é seu neto. Não "seu". Dela, entendeu? Esquece. Ela também não lembrava.O que importa é que havia um escritor, e que a velhinha acreditava nele. E a velhinha era muito respeitada por aquelas bandas.
Era tão respeitada que o Governo começou a ficar de olho. Os republicanos e os monarquistas. Dizem até que quando Cromwell encontrou Carlos I, o primeiro assunto foi a velhinha.
- Falei com a velhinha hoje de manhã.
- E...?
- Ela acredita no Protetorado.
- Era o que eu temia.
- Mas só para que a monarquia recupere os poderes. Eu e você morreremos em nome do povo e em favor a nossos filhos. Agora desce do cavalo, que daí de cima fica difícil te acertar.
Com o fim das revoluções e a instauração da monarquia parlamentar e conseqüente subida da burguesia ao poder político, o Rei decidiu vigiar de perto a velhinha. Vira e mexe, mandavam um agente disfarçado. E a velhinha sempre acreditava.
- E os enclouseres, velhinha?
- É pro bem do povo, meu filho. Agora dá licencinha que o moço do governo quer usar suas terras.
E como o papo de "luta de classes" só surgiria bem mais tarde, a velhinha também acreditava na consolidação do capitalismo e no benefício pra todas as camadas populares.
Assim como os políticos, outros segmentos da sociedade - menos importantes, é verdade, como os escritores, por exemplo - gostavam de saber a opinião da velhinha.
Foi assim que a obra de Shakespeare foi parar na mão dela.
- Meu filho, você tem o mesmo sobrenome que eu.
- Eu sou seu neto, vovó.
- É?
- Esquece... E aí, o que achou?
- Verossímil, meu filho.
Depois que o livro saiu, mandaram prender a velhinha. Acreditar no capitalismo era aceitável, mas em amor à primeira vista?
15 dezembro 2006
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