14 dezembro 2006

TEXTO 8

CRER OU NÃO CRER
(Jair Francelino)

O espectro surgiu do nada, como é comum entre os espectros, se materializou próximo às cortinas. Tinha uma aparência familiar, embora obviamente fosse de outra época e lugar.
– Hamlet? Perguntou LFV, voltando o olhar para a aparição.
– Não. William. Mas pra essa ocasião achei interessante vir caracterizado como o meu personagem.
Verissimo sorriu. De certa forma sempre temeu esse dia. Não o encontro com o sobrenatural, mas a perda da lucidez, pois era óbvio que estava tendo uma alucinação. William percebeu a descrença do outro.
– Existe mais coisa entre o céu e a terra do que possa supor seu vão ceticismo...
– Sei, sei, você já disse algo parecido. Mas, se não é uma alucinação, por que você está falando em português, hem?
– Simples. Babel é coisa desse mundo terreno. Eu apenas mentalizo o que quero dizer e você entende na língua que quiser. Ou puder.
– To believe or not to believe...
– É justamente sobre isso que quero falar...
– O meu inglês?
– Não, embora sua pronúncia, claro, também merecesse reparos. É sobre esse hábito de citação, de fazer paródias, assassinar textos alheios.
– Mas é um recurso quase tão antigo quanto a Literatura. E, segundo consta, suas peças também não primavam pela originalidade.
– Ousa se comparar a mim? Eu engrandeci textos obscuros, já você...
– Eu, o quê?
– Bem, não quero ser deselegante, mas diria que não é só a minha magreza que nos difere. E não estou me referindo à minha vasta cabeleira...
LFV sentiu o golpe, mas preferiu contemporizar:
– O que eu faço são homenagens, admiro sua obra. E faço isso com outros escritores também....
– Eu sei, estou aqui em nome de todos eles... Fui escolhido por minha fleuma. Não ia gostar de se encontrar com Borges ou Conrad...
– Mmf.
– Borges, se já não tivesse morto, teria tido uma síncope com a “homenagem” símia que você lhe fez. Organizou o protesto. Pediu uma audiência com Ele. Queria uma punição ao xará brasileiro.
– Ele, Ele?
– É, ainda é Ele quem decide tudo. Disse que cuidaria disso à Sua maneira. Jorge Luiz concordou, mas exigiu um troco à altura, lembrou que já havia comentários sobre a complacência divina com os desmandos no Brasil ...
– Intrigas....
– Foi o que Ele disse. E decidiu que você devia provar do próprio veneno...
– Espera aí, então aquilo... – e Verissimo sentiu uma pontada no peito, só de lembrar a "homenagem” similar que recebera no livro de um autor iniciante...
– Ele gosta dessas ironias. Às vezes parece mesmo brasileiro.
– Mas eu assimilei bem o golpe. Até fiz o prefácio...
– É, não foi o suficiente. Então começaram os concursos de imitação de seus textos... Conrad exigiu um em que você também fosse idiotizado...
– Maldade...
– Justiça. Mas não adiantou. Você não se emendou. E lançou essa piada do papagaio...
– Outra homenagem... e esse aí já era uma comédia...
Mas Shakespeare continuou, sem dar atenção ao aparte:
– Então Ele percebeu o problema. Era preciso que você soubesse que estava sendo castigado. E pra isso precisava crer na existência d'Ele...
– Por isso você está aqui...
– É. E também pra comunicar que foi autorizado outro concurso. Minha vez de ser vingado.
– Mas, quando imitam a minha obra com referências a vocês, também são atingidos...
– É o preço... Mais uma ironia d'Ele. A diferença é que nós já não temos coração...
– Ai... E a qualidade dos textos dessa vez?...
Mas o espectro não falou mais nada. Apenas esboçou um sorriso triste e se desmaterializou fazendo um gesto com o polegar direito para baixo...

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