Annibal Murilla
A festa era de arromba, estilo anos 70. Natanael tinha pensando em uma orgia, com tudo o que tinha direito, afinal não é todo dia que o fundador do maior império editorial da Terra cumpre 70 anos. Mas só de pensar na possibilidade de que Frederica descobrisse decidiu aceitar a sugestão da festa no salão nobre da sede. Enquanto dava outra golada no seu cuba-libre, olhando para o livro que estava na urna de magnésio transparente e que tinha dado origem à sua saga, não pode deixar de lembrar como se de um filme se tratasse, com todas as cenas claras em sua memória, daquela longínqua noite quando tinha apenas 16 anos:
- Mas vovô, porque essa trabalheira toda se os textos já estão salvos no seu multiflex?
- Natanael, já expliquei. Os pré-históricos tinham costumes e objetos absurdos. O que eu estou tentando reproduzir é um treco chamado livro. Mas para isso nós temos que conseguir roubar mais algumas cortezas de árvore para poder fazer mais uma folha daquele negócio que se chama papel.
- Vô, isso vai acabar mal. Você sabe perfeitamente que queimaram todos os lovris há muito tempo atrás e...
- Livros Natanael, livros!
- Pois é. Se livro fosse bom, o governo não ia queimar. Ia?
- Não é tão simples assim. Quando você crescer você vai entender.
Neste instante dois robôs guardiães de última geração passaram há menos de dois metros dos ladrões de corteza. Por sorte, desde a revolução dos robôs que tinham conseguido sofismar as três leis da robótica nada mais funcionava de forma eficiente.
O mundo caminhava lenta porém inexoravelmente a um retrocesso tecnológico e retorno aos valores, tradições e costumes ancestrais.
Depois de passar a noite inteira terminando a confecção do que seria o primeiro livro impresso nos últimos 1.200 anos, Percy visivelmente emocionado foi despertar Natanael com o seu presente de aniversário. A data: 26 de Setembro de 3.653.
Percy era um romântico. Tinha dedicado toda a sua vida a recompilar incansavelmente toda a obra daquele grande e fabuloso mestre dos mestres que, graças aos seus textos, tinha conseguido que a Terra se convertesse em monoglota e falasse o seu idioma pátrio: o português, tchê! Quando Natanel nasceu em um 26 de Setembro ele não teve dúvidas de que o seu neto seria o messias do renascimento livrístico e a obra do seu ídolo o intrumento para tal feito. No momento em que Percy aproximou-se da cama, Natanael, com sono e contrariado, ainda tentou virar para o lado com um grunhido mas Percy sacudiu-o energicamente e entregou-lhe o exemplar que tinha levado 17 anos em fabricar. O primeiro pedaço de corteza tinha sido roubado na noite em que Natanael nascera. Mas o neto só conseguiu dar um bocejo, pegou o livro e jogou-o displicentemente no vazio ao lado da sua cama. Campos eletromagnéticos estabilizaram o mesmo para que ficasse alinhado aos demais objetos que ali flutuavam. Enquanto saia do quarto do neto, Percy ainda pôde escutar Natanael resmungando:
- O vovô tá mesmo gagá! Onde já se viu alguém ficar tão emocionado e fazer tamanho escarcéu só porque o aniversário do neto coincide com o milésimo septocentésimo décimo sétimo aniversário do nascimento de seja lá quem for?
Mas o desenrolar dos acontecimentos deram razão a Percy. Graças àquele livro Natanael não conseguiu mais parar de ler. Durante o ano seguinte o avô malemá conseguiu pôr as mãos no seu multilfex pois Nataneal desaparecia com o aparelho por horas. De uma feita passou duas noites desaparecido e quando voltou o primeiro que disse foi:
- Vô! Que que é besuntado?
Natanael sempre reclamava que era muito mais gostoso manusear e ler o livro do que ler a imagem holográfica do multiflex. Dizia que não podia entender como uma coisa maravilhosa como o livro tinha podido desaparecer da face da terra.
Quando completou 18 anos Natanael ganhou o seu próprio multiflex e Percy aliviado recuperou o seu. Aos 25, Natanael já tinha a sua coleção completa das obras do mestre feita agora a 4 mãos com o avô. Foi um excelente discípulo. Aos 30 ganhou o prêmio do Instituto de Patentes para novos inventores. Ele pensou em recusar pois não achava ético ser premiado por algo que já existia há mais de 3.000 anos. Porque o prêmio foi outorgado pela patente do livro em si como tal e não pelo celufrinx, que conseguia produzir papel sem utilizar matéria orgânica. Mas deixou prá lá os tecnicismos pois necessitava o dinheiro do prêmio para editar o seu primeiro livro comercialmente: O Analista de Bagé!.
E ali estava Natanael, na tarde do seu septuagésimo aniversário, olhando para o exemplar de Ed Mort e outras histórias que o seu avô Percy tinha levado 17 anos para produzir. Lembrou com carinho do avô. Lembrou de quantas vezes tinha lido e relido aquele livro. E repetiu mentalmente a sua frase favorita: "Mort, Ed Mort, está na plaqueta...." e nesse instante o seu coração gelou: A plaqueta! A plaqueta! Esquecera a placa comemorativa que Frederica tinha-lhe feito pelos seus 70 anos na casa de Rosana, a outra. Ele, decididamente, não sobreviveria àquela festa. Porque que ele não tinha tido coragem de fazer a orgia? No final teria sido mais seguro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário