25 julho 2006

O onanista de Magé

Cristiano Carrozzi

Existem muitas histórias sobre o onanista de Magé. Sabe-se que ele é do interior de Minas, que num dia cismou que ia pro Rio, não tinha dinheiro nem senso de direção, pegou mochila, botou nas costas e saiu. A pé. Durante a viagem se perdeu na serra de Petrópolis e ficou vagando por lá 5 longos meses. Ao retornar a civilização tinha um aspecto cansado, porém sempre sorridente, e a mão direita meio arcada, num formato de garra. Ao invés do Rio chegou em Magé e se arrumou por lá. Era época de carnaval, vários turistas pela cidade, cheiro de sexo por todos os lados e o onanista sempre à espreita, atrás de uma moita, um coqueiro, um carro. Só "onando". Com o tempo ficou conhecido na cidade. Nunca era visto com mulheres, nem homens, dizia que não precisava e com isso algumas pessoas se sentiam à vontade em contar seus problemas sexuais ao onanista. Começou a dar conselhos, sempre verbais, pois suas mãos estavam sempre ocupadas. Mas ouvia com atenção, sempre atento aos detalhes e deixando escapar expressões de satisfação:
Melecado cum queijo? Ah, é bão dimais!
Mais e mais pessoas se abriam com o onanista (no sentido figurado, claro), mesmo sabendo o risco que passavam, até que alguns amigos resolveram ajudá-lo a abrir um consultório, afinal ele não podia continuar ouvindo todo mundo ali na rua, com as mãos enterradas nas calças. Abriu o consultório e foi um sucesso! Vinham pessoas de todos os lugares, Petrópolis, Rio, Teresópolis, Juiz de Fora e até de São Paulo. Esse casal era de lá, após meia hora de consulta o homem achou estranho:
O senhor não vai sair de trás da mesa?
– Mi ajeito mió aqui.
– E porquê não tira as mãos do bolso?
Vai qui o sinhô si anima.
Animar com o quê?
– Cum a história, aí eu já to priparado.
– Preparado pra quê?
– Pra passá u dignóstico. A caneta tá nu borso.
– Ah! Não falei Cleide?! O cara é bom!
Ás vezes não conseguia disfarçar. Como da vez em que dois negrões e uma loira foram ao seu consultório:
Eles perderam o interesse por mim.
– Mais cuano tinha intresse qui faziam?
Hum. Dedéia não tô gostando da cara dele. Nunca vi terapeuta babar.
– Pubrema di denti.
– Gengivite!
– Uai? Tinha otra lorâ?
Apesar de alguns percalços ia muito bem, até mandava fazer calças sob medida, com os forros dos bolsos abertos. No auge, lançou a moda da terapia em grupo:
Eu gosto por trás, com violência. Todos os homens me tratam como santa, no sexo eu viro uma prostituta. Adoro um homem másculo, me domando como uma potranca selvagem.
Eu gosto de ser dominado. Amarrado, como de uma vez em Praga, com duas loiras que me amarraram e me besuntaram com óleo. Aqueles corpos perfeitos escorregando e se esfregando em mim.
Grupal. Fico louca! Meu marido me abandonou por isso. Ele não aprovava a idéia, nem podia ouvir falar do assunto. Nem posso ficar muito em locais públicos, sempre imagino todo mundo tirando a roupa e partindo para uma orgia sem limites! Bocas, seios, bundas e uma profusão de carnes douradas de pernas trançadas.
– O que o senhor tanto chacoalha atrás da mesa?
Caipirinha, qué?
Uma das mais famosas foi quando o Doropôndio, famoso ator pornô, viria até a cidade especialmente para falar com o onanista. Os mais chegados ficaram preocupados. Poderia causar uma overdose, ou uma boa esfoliação. No dia em que o Doropôndio chegou o onanista o recebeu com um pote de creme nas mãos, presente dos amigos. Indicou o divã ao Doropôndio (assim nenhum paciente perguntava mais o que ele fazia atrás da mesa) e se ajeitou, já destampando o pote. Após horas e horas contando suas aventuras, se virou para o onanista:
Eu vou me matar.
Uai? Má purquê?
Acabou. Ninguém mais me quer. Todas a mulheres me vêem apenas como um traficante de sexo e não tenho mais prazer nesse sexo pago. Eu queria uma mulher que me amasse, eu quero sexo com amor!
Se levantou, tirou um revólver da cinta e colocou na boca. No momento em que ia puxar o gatilho, o onanista o interrompeu:
– Carma, meu amigo. Sempre tem uma mãozim amiga pra ti ajudá!

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