25 julho 2006

Nunca se sabe...Nunca se sabe...

Isabel Cristina

Há vinte anos atrás compareci à tarde de autógrafos de um cronista brasileiro quando, absorto em imaginários futuros meios-fios de fama, percebi que uma moça me esbarrou e me disse algo como "licencinha, por gentileza". Ela mal esperou eu dar um ui e um pulo para o lado e passou com a filha, um sorriso, um perfume e ainda suscitou-me uma premonição.
A moça comprou o livro, entrou na fila e deve ter feito dezessete promessas à menina, para que permanecesse quieta ao seu lado. Na sua vez e dona de si, a julgar pela Olympus sem capa e flashes ligados, ela cumprimentou amavelmente o escritor, que tirou os óculos, abraçou-a e beijou-a com um discreto ar de intimidade. De súbito, com o olhar, ela perscrutou cada indivíduo e, como eu temia, fixou-me. Tentei de soslaio reproduzir o sorriso indecifrável da Monalisa, mas só consegui esboçar, ao encará-la, uma risada franzida e dúbia e isto lhe permitiu relacionar-se com a minha suposta metade extrovertida.
E o presságio aconteceu! Como um Sputnik ela arremessou aos meus braços a filha e, em segundos, posicionou-se com a câmera rente ao escritor e o fotografou. Sofregamente desejei que aquela eternidade, no papel de babá, durasse apenas a ardência do clique de um dedo de moça no obturador. E durou: o suficiente para ela rápida, em estilo Tesourinha, desconcertar-me num drible perfeito, resgatar a criança dos meus braços e arremessar a câmera para as minhas mãos. Num lance ágil, postou-se ao lado do escritor e apitou-me, com altura e desenvoltura, um sonoro "moço, bate um retrato da gente".
E para quem já estava com sorriso franzido, o que seria um olho que também viesse a franzir? Bati, no que ela prontamente ordenou-me um "moço, agora bate outra... pra garantir". E obedeci! Rebati! Devolvi a câmera e saí, com rima e tudo, e à francesa, antes que ela se lembrasse das promessas feitas à menina e me pedisse para pilotar carrinho de choques ou voar em xícaras, naqueles bem típicos brinquedos de shopping centers.
Com o tempo encontrei a jovem senhora, a garota adolescente e o familiar "licencinha" em situações inusitadas com direito a uis e trombadas, como nos corredores das aeronaves, nos vôos para Buenos Aires. Creio ter sido a mãe a mulher que vi pedir a um japonês para "bater um retrato dela" e "mais outro pra garantir" em frente a Sorbonne. E ainda num dezembro em Nova Iorque, no saguão do hotel onde me hospedei. Ela foi encontrar-se com amigas e cheguei a ouvi-la sussurrar com algumas, enquanto me olhava e conferia o ambiente, que seu hotel era mais qualificado, pois havia visto baratas apenas no seu frigobar. E assim mesmo congeladas!
De alguns anos para cá trocamos sorrisos franzidos em contemplação a teto de elevadores ou quando me apresento com a Banda Jazz-6. A jovem senhora, além de fotografias, é apaixonada por contrabaixo. Por coincidência nos encontramos recentemente na noite de autógrafos de um outro escritor e no dia seguinte, para minha surpresa, aparecemos, eu e ela, devidamente editados no noticiário da TV. Talvez, em breve, possamos nos ver nas comemorações dos meus setenta anos. Tenho inclusive treinado minha musculatura numa academia de ginástica olímpica e procurado manter uma câmera dentro do paletó. Imagine se a senhora mãe vier a necessitar de uma?
Nunca se sabe...nunca se sabe... mas, em todos os casos, serei rápido e preciso, como um atleta, se tiver que lhe fazer um arremesso. Vou considerar a hipótese dela ao receber a câmera arremessar-me outra vez a filha que eu suponho, nestas mais de duas décadas, ter crescido tudo o que devia.

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