26 julho 2006

Trinta por dezoito

Anderson Marcelo Leão Lopes


Eles demoraram dez anos, mas casaram numa linda manhã de domingo, no belo gramado da linda casa que construíram, cercados por muitos e verdadeiros amigos e viveram felizes até...bem, isso eu já não sei, de qualquer forma, esse conto já teve o seu final feliz.
O que nos interessa agora é que, na véspera do casamento, eles comemoraram, só os dois, o aniversário de 40 anos dele.
Jantar a luz de velas ao som de As Time Goes by , regado a vinho, gargalhadas, esperanças e muitas lembranças, começando pelo dia em que se conheceram, quase dez anos antes, um dia após o aniversário de 18 anos dela:
— Eu achei que você tivesse uns 25 anos, no mínimo. – disse ele.
— E eu achei que você tivesse uns 25 anos, no máximo. – retrucou ela.
— Eu te achei linda assim que te vi, mas quando você abriu a boca...
— Você não era tão bonito, mas era tão inteligente.
— Quando você disse que achava que yin e yang eram os integrantes de uma dupla caipira chinesa... — Pausa para gargalhadas irônicas. — eu achei que não fosse agüentar, aliás, nessa hora você deixou de ser linda para ser apenas bonitinha.
— Por que você insistiu então?
— porque você fazia parte da Sociedade Protetora dos Animais, fiquei comovido.
— Achei estranho quando você disse que gostava de Chico Buarque, Ivan Lins, Vinícius.
— Fora aquelas bandas dos anos 80 que agora você não consegue parar de ouvir.
— Coisa de velho.
— Ahhh é? Mas você bem que gostou quando eu declamei o Soneto da Fidelidade pra você.
— Eu adorei, mas não consegui deixar de pensar que você fazia isso com todas.
— Como você era insegura.
— Como você era galinha.
— Mais estranho que eu gostar de bossa-nova foi a crise de choro que você teve quando ouviu Oswaldo Montenegro pela primeira vez, aliás, antes você dizia que não gostava do estilo dele, sem nunca ter ouvido.
— É, mas voltando ao nosso primeiro encontro, você usou uma expressão que eu adorei: "sopa no mel". Nem o meu pai falava mais "sopa no mel".
— Pior era você que a cada fim de frase colocava um "véi", não era "velho", nem "véio", era só "véi", que coisa mais irritante.
— Era mesmo. — Pausa para riso nervoso. — Ai que vergonha!
— Acho que "véi" pra você era, mais ou menos, como "bicho" pra mim, quando eu tinha os meus 18.
— Quando eu vejo as menininhas de hoje falando essas bobagens eu fico imaginando o arrependimento que elas irão sentir no futuro.
— Nem todas, têm umas que param no tempo.
— Você sabe que naquela época eu nunca tinha ficado com um cara de sapatos?
— Como assim?
— Ué, meus amigos, meus ficantes, todo mundo que eu conhecia, só usava tênis, ou, no máximo, um sapatinho de nobuque, sapato mesmo, de verdade, você foi o primeiro, aliás, primeiro e único.
— E eu nunca poderia imaginar que você ainda fosse virgem.
— Por que?
— Porque você era toda saidinha, ficava com um monte de gente e...sei lá, você não fazia o tipo virgem e puritana.
— Puritana eu nunca fui mesmo...
— Isso eu sei...agora.
— E a cara daquela sua ex quando encontrou com a gente no cinema?
— Que cara?
— Vai dizer que você não reparou?
— Vou dizer sim: não reparei.
— Ela lá, toda vestida de terninho, em pleno domingo...
— Tailleur.
— Que seja!
— Era!
— Então você lembra?
— Claro que lembro, você passou o filme inteiro rindo da cara dela.
— Aquela perua quando me viu ao seu lado de tênis, calça jeans e umbigo de fora, ficou tão chocada que deixou cair o saco de pipoca.
— Ela não era perua, era advogada, se bem que toda advogada é meio perua mesmo e você realmente era uma pirralha.
— Pirralha gostosa, charmosa e com tudo no lugar, né?
— É verdade, naquela época estava tudo no lugar mesmo, no lugar errado. E depois ela veio me perguntar se eu estava te criando.
— Quer dizer que vocês andaram se encontrando por aí?
— Ahhh não! Cena de ciúme na véspera do nosso casamento definitivamente não!
— E quem é você para falar de cena de ciúme? Se lembra que você quase teve um enfarto quando eu te disse que ainda tinha uma foto do meu ex no meu quarto?
— Mas a gente já tinha quase dois meses e isso foi antes de ver a foto daquele moleque.
— O que tinha a foto dele?
— Tinha ele, ora, e como se não bastasse a feiúra e o meio metro, ainda estava de boné e fazendo pose com os dedos como se fosse uma tesoura, um "V" deitado .
— E você me fez jogar a foto no lixo.
— O que você queria, que eu mandasse ampliar?
— Tá, mas você exagerou na cena.
— Quem exagerou na cena foi minha futura sogra.
— Por que?
— Vai dizer que você não lembra do seu aniversário de 20 anos?
— Não lembro.
— Na primeira vez que eu fui na sua casa ela fez questão de perguntar "e o senhor aceita um uísque ou prefere uma Sukita?".
— Você se sentiu o próprio "tio" do comercial?
— O problema não foi a Sukita, foi o "senhor".
— Mas hoje você bem que adora sua sogra.
— Claro que adoro, ela faz quindins só pra mim.
— E enquanto ela te mima, o SENHOR aproveita e foge do assunto.
— Que assunto?
— Quando e onde o SENHOR encontrou a perua, ou melhor, a doutora perua?
— Foi logo depois daquele dia, no Oswaldo.
— E?
— E nada, eu estava lá, ela entrou, perguntou se eu estava te criando, eu disse que sim, ela riu da minha cara, disse que ficava só imaginando o que a gente conversava, se seria sobre figurinhas ou malhação e depois foi embora.
— Você disse que sim? Que mico!
— Mico foi você quem pagou no nosso primeiro dia dos namorados.
— Lá vem a história das taças novamente!
— Vem mesmo! Vou repetir isso pelo resto da vida!
— Eu chego na sua casa e encontro duas taças de vinho sobre a pia, o que você queria que eu imaginasse?
— Que eu havia deixado tudo preparado para te receber.
— Isso eu percebi depois que vi as velas, as rosas, os dadinhos do amor, o presente e aquele cartão lindo que você preparou para mim. Viu como eu lembro de tudo?
— Mas na hora olhou para mim com aquela cara de Charles Bronson em Desejo de Matar 117 e ainda teve a coragem de me perguntar se minha namorada da tarde também gostava de vinho.
— Depois eu fiquei com muita vergonha. Ainda bem que isso é passado, agora eu sei que você é só meu. — Pausa premeditada — Não é?
— Claro que sou!
— Acho bom! Você sabe que comigo é "bateu-levou-levou"! E se eu algum dia imaginar que você está me traindo, você pode ter a certeza que vou te trair em dobro.
— Calma Dani, você sabe que se algum dia eu ficar com outra mulher você terá todo o direito de fazer exatamente a mesma coisa.
— E você não vai sentir ciúmes?
— Acho que não.
— Como não?
— Direito iguais.
— Até parece!
— Verdade! Se algum dia eu ficar com uma loira de olhos verdes, alta, rica e charmosa você terá todo o direito de ficar com a mesma loira de olhos verdes...
— Bobão!
— Eu te amo! Você sabe que eu jamais faria isso!
— Sei nada!
— Sabe sim! Sabe que eu prefiro olhos azuis.
— Vamos mudar de assunto? A gente vai casar daqui a poucas horas e você fica aí me provocando.
— Brincadeira mozão!
— Olha, eu quero engravidar na lua-de-mel igual à Ana Paula Arósio.
— Ela tá grávida?
— Na novela.
— Ufa!!!
— O que você acha?
— Acho que vou adorar um estripe igual ao dela na noite de núpcias.
— Você não é o Edson Celulari mas eu faço assim mesmo.
— E você está muito mais para Lurdinha que para Olívia, mas vou adorar isso.
— Tá tio!
— Agora me diz que você não colocou uma velinha para cada ano que eu faço hoje.
— Não, esse ano eu fiquei com medo da fumaça te sufocar e comprei uma só.
— Engraçadinha!
— Antes de partir o bolo, me explica uma coisa...
— Como faço para parecer tão jovem?
— Como é que você sabe que naquela foto o Oscar estava usando boné e fazendo pose de tesoura, se eu rasguei a foto quando a gente completou um mês e você só entrou lá em casa quase dois anos depois?
— Quando a gente completou dois meses!
— Hein?
— Tá bom, nem precisa insistir, eu admito, deixei escapar um segredo de quase 10 anos.
— Foi você quem me ensinou a ser esperta, agora agüenta.
— Ok, eu vou contar...
— Conta...
— Se lembra do primeiro livro que te dei?
— Comédias da Vida Privada, do Veríssimo.
— Isso.
— O que tem ele?
— Se lembra que apesar da pouca idade e também justamente por causa dela você me deixava muito inseguro no início?
— Não era eu que te deixava, era você que se sentia.
— Que seja! Mas quando você me disse que ainda tinha uma foto dele no seu quarto, achei que você ainda gostasse dele e nessa época eu já estava completamente apaixonado por você.
— Sei.
— Eu não queria sofrer por causa de uma pirralha imprevisível.
— Sei.
— Ele tinha mais ou menos a sua idade.
— Sei.
— Sua mãe adorava ele.
— Sei.
— Se lembra que te pedi em casamento quando a gente completou 17 dias de namoro e você teve um ataque de riso?
— Sim, e daí?
— Aí você me disse que a foto estava lá porque você ainda não tinha se lembrado de tirar e que eu não deixava mais você parar em casa e coisa e tal.
— Você vai explicar ou não?
— Vou, mas você se lembra?
— Lembro, e lembro também que te prometi tirar a foto naquela noite.
— Exatamente! E se lembra também daquela vez que você achou que estivesse grávida, uns dois ou três anos depois, e que eu disse que se fosse menino eu queria que chamasse Luis?
— Claro que lembro, foi um sufoco.
— Luis em homenagem...
— Luis com "S" e sem acento em homenagem ao Veríssimo, eu lembro.
— Pois é, naquele dia eu fui para casa aborrecido e inseguro, aí resolvi abrir um livro para ver se melhorava meu humor.
— Dá para chegar aos "finalmentes"?
— É claro que escolhi um livro dele.
— Claro!
— E eu estava decidido a terminar tudo com você, a mulher mais linda, mais cheirosa, mais charmosa, mais honesta, mais engraçada e mais inteligente que já conheci, só por causa da minha insegurança.
— Como se existisse "mais honesta"!
— Eu te amo!
— Eu também te amo, mas pare de fugir do assunto, estou ansiosa e de TPM.
— Tá! Aí eu li uma crônica sobre um casal de vizinhos que se conhecia por revirar o lixo um do outro.
— Eu lembro, acho que se chamava "Lixo".
— Exatamente.
— Eu não acredito que você fez isso!
— Fiz! Coloquei na cabeça que te daria uma semana para se livrar da foto do sujeito, mas não tocaria mais no assunto.
— Bem que achei estranho você nunca mais ter falado disso.
— Revirei o lixo da sua casa durante quatro dias até que achei a foto do "menino".
— Não acredito!
— Eu também não acreditei quando descobri que o senhor-seu-pai-general-linha-dura de Souza, que não deixava você chegar depois da meia-noite, usava Viagra e camisinha do botafogo.
— Meu pai usa Viagra? Não acredito!!!
— Usava, não sei se ainda usa.
— E por que você não me contou isso antes?
— Sei lá, vergonha.
— Vergonha? Na idade dele você também vai usar.
— Eu estava falando da foto.
— Então foi por isso que você me deu o livro junto com aquelas rosas em plena quinta-feira?
— Presente por você ter salvado nosso namoro.
— Eu não, o Veríssimo.
— Exatamente, o Veríssimo.
No dia seguinte, depois do tão esperado "sim", enquanto ainda caminhavam entre os convidados, ela se aproximou discretamente dele e, sussurando, perguntou:
— Ontem, o que você quis dizer com "naquela época"?

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