Anderson Marcelo Leão Lopes
Eles demoraram dez anos, mas casaram numa linda manhã de domingo, no belo gramado da linda casa que construíram, cercados por muitos e verdadeiros amigos e viveram felizes até...bem, isso eu já não sei, de qualquer forma, esse conto já teve o seu final feliz.
O que nos interessa agora é que, na véspera do casamento, eles comemoraram, só os dois, o aniversário de 40 anos dele.
Jantar a luz de velas ao som de As Time Goes by , regado a vinho, gargalhadas, esperanças e muitas lembranças, começando pelo dia em que se conheceram, quase dez anos antes, um dia após o aniversário de 18 anos dela:
— Eu achei que você tivesse uns 25 anos, no mínimo. – disse ele.
— E eu achei que você tivesse uns 25 anos, no máximo. – retrucou ela.
— Eu te achei linda assim que te vi, mas quando você abriu a boca...
— Você não era tão bonito, mas era tão inteligente.
— Quando você disse que achava que yin e yang eram os integrantes de uma dupla caipira chinesa... — Pausa para gargalhadas irônicas. — eu achei que não fosse agüentar, aliás, nessa hora você deixou de ser linda para ser apenas bonitinha.
— Por que você insistiu então?
— porque você fazia parte da Sociedade Protetora dos Animais, fiquei comovido.
— Achei estranho quando você disse que gostava de Chico Buarque, Ivan Lins, Vinícius.
— Fora aquelas bandas dos anos 80 que agora você não consegue parar de ouvir.
— Coisa de velho.
— Ahhh é? Mas você bem que gostou quando eu declamei o Soneto da Fidelidade pra você.
— Eu adorei, mas não consegui deixar de pensar que você fazia isso com todas.
— Como você era insegura.
— Como você era galinha.
— Mais estranho que eu gostar de bossa-nova foi a crise de choro que você teve quando ouviu Oswaldo Montenegro pela primeira vez, aliás, antes você dizia que não gostava do estilo dele, sem nunca ter ouvido.
— É, mas voltando ao nosso primeiro encontro, você usou uma expressão que eu adorei: "sopa no mel". Nem o meu pai falava mais "sopa no mel".
— Pior era você que a cada fim de frase colocava um "véi", não era "velho", nem "véio", era só "véi", que coisa mais irritante.
— Era mesmo. — Pausa para riso nervoso. — Ai que vergonha!
— Acho que "véi" pra você era, mais ou menos, como "bicho" pra mim, quando eu tinha os meus 18.
— Quando eu vejo as menininhas de hoje falando essas bobagens eu fico imaginando o arrependimento que elas irão sentir no futuro.
— Nem todas, têm umas que param no tempo.
— Você sabe que naquela época eu nunca tinha ficado com um cara de sapatos?
— Como assim?
— Ué, meus amigos, meus ficantes, todo mundo que eu conhecia, só usava tênis, ou, no máximo, um sapatinho de nobuque, sapato mesmo, de verdade, você foi o primeiro, aliás, primeiro e único.
— E eu nunca poderia imaginar que você ainda fosse virgem.
— Por que?
— Porque você era toda saidinha, ficava com um monte de gente e...sei lá, você não fazia o tipo virgem e puritana.
— Puritana eu nunca fui mesmo...
— Isso eu sei...agora.
— E a cara daquela sua ex quando encontrou com a gente no cinema?
— Que cara?
— Vai dizer que você não reparou?
— Vou dizer sim: não reparei.
— Ela lá, toda vestida de terninho, em pleno domingo...
— Tailleur.
— Que seja!
— Era!
— Então você lembra?
— Claro que lembro, você passou o filme inteiro rindo da cara dela.
— Aquela perua quando me viu ao seu lado de tênis, calça jeans e umbigo de fora, ficou tão chocada que deixou cair o saco de pipoca.
— Ela não era perua, era advogada, se bem que toda advogada é meio perua mesmo e você realmente era uma pirralha.
— Pirralha gostosa, charmosa e com tudo no lugar, né?
— É verdade, naquela época estava tudo no lugar mesmo, no lugar errado. E depois ela veio me perguntar se eu estava te criando.
— Quer dizer que vocês andaram se encontrando por aí?
— Ahhh não! Cena de ciúme na véspera do nosso casamento definitivamente não!
— E quem é você para falar de cena de ciúme? Se lembra que você quase teve um enfarto quando eu te disse que ainda tinha uma foto do meu ex no meu quarto?
— Mas a gente já tinha quase dois meses e isso foi antes de ver a foto daquele moleque.
— O que tinha a foto dele?
— Tinha ele, ora, e como se não bastasse a feiúra e o meio metro, ainda estava de boné e fazendo pose com os dedos como se fosse uma tesoura, um "V" deitado .
— E você me fez jogar a foto no lixo.
— O que você queria, que eu mandasse ampliar?
— Tá, mas você exagerou na cena.
— Quem exagerou na cena foi minha futura sogra.
— Por que?
— Vai dizer que você não lembra do seu aniversário de 20 anos?
— Não lembro.
— Na primeira vez que eu fui na sua casa ela fez questão de perguntar "e o senhor aceita um uísque ou prefere uma Sukita?".
— Você se sentiu o próprio "tio" do comercial?
— O problema não foi a Sukita, foi o "senhor".
— Mas hoje você bem que adora sua sogra.
— Claro que adoro, ela faz quindins só pra mim.
— E enquanto ela te mima, o SENHOR aproveita e foge do assunto.
— Que assunto?
— Quando e onde o SENHOR encontrou a perua, ou melhor, a doutora perua?
— Foi logo depois daquele dia, no Oswaldo.
— E?
— E nada, eu estava lá, ela entrou, perguntou se eu estava te criando, eu disse que sim, ela riu da minha cara, disse que ficava só imaginando o que a gente conversava, se seria sobre figurinhas ou malhação e depois foi embora.
— Você disse que sim? Que mico!
— Mico foi você quem pagou no nosso primeiro dia dos namorados.
— Lá vem a história das taças novamente!
— Vem mesmo! Vou repetir isso pelo resto da vida!
— Eu chego na sua casa e encontro duas taças de vinho sobre a pia, o que você queria que eu imaginasse?
— Que eu havia deixado tudo preparado para te receber.
— Isso eu percebi depois que vi as velas, as rosas, os dadinhos do amor, o presente e aquele cartão lindo que você preparou para mim. Viu como eu lembro de tudo?
— Mas na hora olhou para mim com aquela cara de Charles Bronson em Desejo de Matar 117 e ainda teve a coragem de me perguntar se minha namorada da tarde também gostava de vinho.
— Depois eu fiquei com muita vergonha. Ainda bem que isso é passado, agora eu sei que você é só meu. — Pausa premeditada — Não é?
— Claro que sou!
— Acho bom! Você sabe que comigo é "bateu-levou-levou"! E se eu algum dia imaginar que você está me traindo, você pode ter a certeza que vou te trair em dobro.
— Calma Dani, você sabe que se algum dia eu ficar com outra mulher você terá todo o direito de fazer exatamente a mesma coisa.
— E você não vai sentir ciúmes?
— Acho que não.
— Como não?
— Direito iguais.
— Até parece!
— Verdade! Se algum dia eu ficar com uma loira de olhos verdes, alta, rica e charmosa você terá todo o direito de ficar com a mesma loira de olhos verdes...
— Bobão!
— Eu te amo! Você sabe que eu jamais faria isso!
— Sei nada!
— Sabe sim! Sabe que eu prefiro olhos azuis.
— Vamos mudar de assunto? A gente vai casar daqui a poucas horas e você fica aí me provocando.
— Brincadeira mozão!
— Olha, eu quero engravidar na lua-de-mel igual à Ana Paula Arósio.
— Ela tá grávida?
— Na novela.
— Ufa!!!
— O que você acha?
— Acho que vou adorar um estripe igual ao dela na noite de núpcias.
— Você não é o Edson Celulari mas eu faço assim mesmo.
— E você está muito mais para Lurdinha que para Olívia, mas vou adorar isso.
— Tá tio!
— Agora me diz que você não colocou uma velinha para cada ano que eu faço hoje.
— Não, esse ano eu fiquei com medo da fumaça te sufocar e comprei uma só.
— Engraçadinha!
— Antes de partir o bolo, me explica uma coisa...
— Como faço para parecer tão jovem?
— Como é que você sabe que naquela foto o Oscar estava usando boné e fazendo pose de tesoura, se eu rasguei a foto quando a gente completou um mês e você só entrou lá em casa quase dois anos depois?
— Quando a gente completou dois meses!
— Hein?
— Tá bom, nem precisa insistir, eu admito, deixei escapar um segredo de quase 10 anos.
— Foi você quem me ensinou a ser esperta, agora agüenta.
— Ok, eu vou contar...
— Conta...
— Se lembra do primeiro livro que te dei?
— Comédias da Vida Privada, do Veríssimo.
— Isso.
— O que tem ele?
— Se lembra que apesar da pouca idade e também justamente por causa dela você me deixava muito inseguro no início?
— Não era eu que te deixava, era você que se sentia.
— Que seja! Mas quando você me disse que ainda tinha uma foto dele no seu quarto, achei que você ainda gostasse dele e nessa época eu já estava completamente apaixonado por você.
— Sei.
— Eu não queria sofrer por causa de uma pirralha imprevisível.
— Sei.
— Ele tinha mais ou menos a sua idade.
— Sei.
— Sua mãe adorava ele.
— Sei.
— Se lembra que te pedi em casamento quando a gente completou 17 dias de namoro e você teve um ataque de riso?
— Sim, e daí?
— Aí você me disse que a foto estava lá porque você ainda não tinha se lembrado de tirar e que eu não deixava mais você parar em casa e coisa e tal.
— Você vai explicar ou não?
— Vou, mas você se lembra?
— Lembro, e lembro também que te prometi tirar a foto naquela noite.
— Exatamente! E se lembra também daquela vez que você achou que estivesse grávida, uns dois ou três anos depois, e que eu disse que se fosse menino eu queria que chamasse Luis?
— Claro que lembro, foi um sufoco.
— Luis em homenagem...
— Luis com "S" e sem acento em homenagem ao Veríssimo, eu lembro.
— Pois é, naquele dia eu fui para casa aborrecido e inseguro, aí resolvi abrir um livro para ver se melhorava meu humor.
— Dá para chegar aos "finalmentes"?
— É claro que escolhi um livro dele.
— Claro!
— E eu estava decidido a terminar tudo com você, a mulher mais linda, mais cheirosa, mais charmosa, mais honesta, mais engraçada e mais inteligente que já conheci, só por causa da minha insegurança.
— Como se existisse "mais honesta"!
— Eu te amo!
— Eu também te amo, mas pare de fugir do assunto, estou ansiosa e de TPM.
— Tá! Aí eu li uma crônica sobre um casal de vizinhos que se conhecia por revirar o lixo um do outro.
— Eu lembro, acho que se chamava "Lixo".
— Exatamente.
— Eu não acredito que você fez isso!
— Fiz! Coloquei na cabeça que te daria uma semana para se livrar da foto do sujeito, mas não tocaria mais no assunto.
— Bem que achei estranho você nunca mais ter falado disso.
— Revirei o lixo da sua casa durante quatro dias até que achei a foto do "menino".
— Não acredito!
— Eu também não acreditei quando descobri que o senhor-seu-pai-general-linha-dura de Souza, que não deixava você chegar depois da meia-noite, usava Viagra e camisinha do botafogo.
— Meu pai usa Viagra? Não acredito!!!
— Usava, não sei se ainda usa.
— E por que você não me contou isso antes?
— Sei lá, vergonha.
— Vergonha? Na idade dele você também vai usar.
— Eu estava falando da foto.
— Então foi por isso que você me deu o livro junto com aquelas rosas em plena quinta-feira?
— Presente por você ter salvado nosso namoro.
— Eu não, o Veríssimo.
— Exatamente, o Veríssimo.
No dia seguinte, depois do tão esperado "sim", enquanto ainda caminhavam entre os convidados, ela se aproximou discretamente dele e, sussurando, perguntou:
— Ontem, o que você quis dizer com "naquela época"?
26 julho 2006
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