Walkerlucia do Rêgo Barros
O restaurante era aberto, do tipo em que as mesas ficam dispersas ao longo da calçada como nos passeios europeus. Podia-se ouvir um som de jazz pelo ambiente bem iluminado. Esperava com impaciência meu pedido, um suculento buffet quando a vi surgir. Pele clara, olhos translúcidos, boca carnuda, corpo escultural. Uma Luana. Linda, linda. Mais baixa, era verdade, mas o que isso importa? Importante era o ar de deusa que emanava dela.
- Bonjour monsieur, parle vouz français?
Que biquinho! Assenti com a cabeça. É claro que queria conhecê-la. Já nos imaginava desbravando o mundo. Ela, minha Lassiva, Imperatriz absoluta. Eu, Límpido de Saponáceo, trovador apaixonado, montados em meu cavalo Escarneceu conquistaríamos o mundo, atravessaríamos Pontes de Safena, cavalgaríamos entre motins e valiums. Ou qualquer coisa assim.
-Très bien! Je m’apelle Lucille. Continuou ela apontando para si.
-Posso me certificar? E antes que respondesse, toquei-lhe a pele. Absolutamente macia.
A bela sorriu sem jeito, visivelmente afetada pelo meu toque. Ergueu o braço apontando para a avenida à direita do restaurante.
-Le musée c’est a là-bas?
-Claro! Pode sentar. Aqui - apontei minha mesa.
Ela franziu o cenho. Provavelmente assustada com minha audácia. Lembrei que nem havia dito o nome, que descuido, óbvio que ela me achara ousado.
- Desculpe-me. Meu nome é Luiz.
-Lui?
-Lui não, Luiz. L-U-I-Z. Sem acento.
Nova franzida de cenho. Estava sendo educado, ora bolas. O que haviam dito mesmo? Sorrir, nessas situações o melhor é sorrir. Sorri.
- Ummmm... Je suis heureuse de vous connaître?
-Conhaque? Tem certeza? Será que um vinho não seria mais adequado? Mulheres tendem a achar romântico um vinho... - achei melhor me certificar.
-Pardon, mais, je ne pas compris.
A coisa estava ficando quente. Já me vinha sexo na cabeça. Na cabeça? Não, longe dela. Quanto mais longe melhor. Linda, linda...
-Que tal se fossemos a um lugar mais reservado? Somente eu e você?
-Je ne compris pas, monsieaur! – o tom de voz era outro, notei sua face enrubecida.
-Calma linda! – pousei minhas mãos sobre as dela. Podemos começar aqui mesmo.
Fiz aquela mão macia deslizar por minha camisa, enquanto lançava-lhe um olhar sugestivo.
-É claro que é comprido.
-Infame! – ela gritou levantando-se da mesa.
-Com certeza! Você é uma fêmea e eu um macho, nada mais normal do que passar a lingüiça na farinheira. Entendeu?
Quem não entendeu fui eu. Quando recordo, ainda sinto a mão daquela deusa em meu rosto. Nunca imaginei que seres tão angelicais pudessem ser tão fortes. Nada de splish, splash, levei um POC mesmo, um soco no meio da cara. Ponto.
Pior que apanhar da Luana e ficar a ver navios, foi ter que aturar o riso zombeteiro do velhinho de óculos na mesa ao lado. Perguntei petulante o que eu havia feito errado.
-Eu não sei, eu não sei. – ele respondeu. Mas foi quase.
26 julho 2006
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