25 julho 2006

Reeducando, tudo junto

Helaine Carine


Criei um péssimo hábito. O hábito de pesquisar no dicionário todas as palavras que eu não conheço. O problema que isso gera é ficar em dúvida com palavras que antes eu sabia a grafia. Conhecia até a acentuação. Bem, agora na verdade eu apenas acredito que sabia. O costume surgiu depois que comecei a freqüentar uma comunidade no orkut. Mas não uma dessas comunidades comuns. É a comunidade de Luis Fernando Verissimo.

Outro hábito adquirido: reler tudo que eu escrevo. Uma dor de cabeça! A convivência virtual com a turma da comunidade é ótima. Tenho adquirido novos hábitos. O de perder o dia não trabalhando é um deles. Na verdade, a convivência com pessoas diferentes, de hábitos e costumes idem, vem me reeducando gramaticalmente. Passei a ler muito, e todos os dias. Odiava a gramática. Muitas regras, concordâncias e flexões. Muitos pontos, muitos acentos. Língua fácil de aprender é o inglês. Nem inglês, em inglês, tem acento.

O Luis foi o grande responsável. Nos apresentaram quando eu ainda nem tinha peitos. Peitos. Como doem. Na idade do Luis em setembro, eles serão duas enormes pelancas. Mas ainda falta muito. Eu acho que falta muito. O primeiro texto do Luis foi "Comunicação". Perfeito, perfeito! Mas lia por obrigação e, para minha sorte, a professora não me apresentou a um Luis falso. O Falso. Cheio de sentimentalidades. Sentimentalidades existe? Onde está meu dicionário? Sou uma romântica incorrigível – incorrigível tem acento? Duvido que o Luis se pergunte tais absurdos. Onde eu estava? O Falso.

* * *

A dúvida me trás a convicção que não tenho certeza. Sinto-me mais insegura que antes ao escrever – eu acho que escrevo. A insegurança se torna medo que rapidamente se converte em pavor. A turma é culta. Gente especializada em Luis. O Luis, com seus setenta, já deve ter perdido a paciência folheando o dicionário. Que lástima! Muita pretensão comparar uns rabiscos à genialidade do Luis. Mais ainda! Achar que minha incapacidade orto-gramatical poderia, em hipótese, tê-lo acometido. Tê-lo acometido! Até que soa bonito esta frase. Lembro do outro texto dele que adoro: "Palavreado".


Setenta anos. Quais serão os pensamentos do Luis? Com certeza não se aproximam do conteúdo dos meus. Óbvio que ele não estaria preocupado com o que vão achar do que ele está escrevendo. Ele é magnânimo. Acho que o acento de magnânimo está certo. Aposto que nunca esqueceu um acento, ou escreveu uma palavra errada. Uma vez ele "quase" errou um trema, mas ninguém percebeu. Eu acho que ninguém percebeu. O Luis. O gordinho de bochechas rosadas e humor irônico. Setenta anos! E mais um dia de trabalho perdido. Mas por Luis vale a pena. O Verissimo, sem acento. Magnânimo, magnânimo.

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