25 julho 2006

Entrevista (não autorizada)

Edna dos Santos

Quem é Veríssimo? Como te defines?
Mort. Ed Mort. Detetive particular. Fiz o curso por correspondência. Tive de subornar o carteiro para passar. E a aula sobre como ganhar dinheiro na profissão ele nunca me entregou.
Eu sou assim. Duro. Em todos os sentidos.
( Reflete, sorri e lasca:)
Curioso: sempre me imaginei do tipo Paulo Betti.


Fale-nos da tua infância.
O apelido dele era "Cascão" e vinha as infância. Uma irmã mais velha descobrira uma mancha escura que subia pela sua perna e que a mãe apreensiva, a princípio atribuiu a uma doença de pele. Em seguida descobriu que era sujeira mesmo.
Aos 14 anos, a cara cheia de espinhas e, como se não bastasse isso, inventou de estudar violino até que surgiu Vandirene, ou melhor, "Vandeca Furacão".
( Leve rubor.)


Quando nasceu o escritor Luis Fernando Veríssimo?
Quem entende como as pessoas se apaixonam? Pode acontecer de uma hora para outra. Você conhece uma pessoa a vida inteira e um dia nota alguma coisa, um detalhe que nunca tinha percebido antes, e pimba: amor à milésima vista.


Sofrestes a influência da obra de teu pai Érico Veríssimo?
Oscar Wilde , que morreu há mais de 100 anos, escreveu algumas das frases mais memoráveis e citáveis da língua inglesa para seus personagens, mas hoje o seu personagem mais lembrado é ele mesmo.
Há muitas crônicas que tu escrevestes sobre relacionamento homem/mulher. Fale-nos sobre o amor e os relacionamentos amorosos nos dias atuais.
Chega um dia na vida de todo homem em que ele se olha no espelho de manhã e tem uma revelação estarrecedora: sua mulher está dormindo com outro! Depois ele olha melhor e vê que não é outro, é ele mesmo.


Todo literato é um "fingidor". Comente.
Nós nunca mentimos. Quando mentimos, é para o bem de vocês. Verdade. Começa na infância, quando a gente diz para a mãe que está sentindo uma coisa estranha, bem aqui, e não pode ir à aula sob pena de morrer no caminho. Se fôssemos sinceros e disséssemos que não tínhamos feito a lição de casa e por isso não podíamos enfrentar a professora, a mãe teria uma grande decepção. Assim, lhe dávamos a alegria de se preocupar conosco, que é a coisa que mãe mais gosta, e a poupávamos de descobrir a nossa falta de caráter. Melhor ter um doente do que um vagabundo.


Como é fazer 70 anos?
Um homem vem caminhando por um parque quando de repente se vê com sete anos de idade. Dá-se com ele mesmo chutando uma bola perto de um banco onde está a sua babá fazendo tricô. Não tem a menor dúvida de que é ele mesmo. Reconhece a sua própria cara, reconhece o banco e a babá. O homem aproxima-se dele mesmo, ajoelha-se, e chora. Depois abraça a si mesmo e sai chorando sem olhar para trás.
O garoto fica olhando para a sua figura que se afasta. Também se reconheceu. E fica pensando, aborrecido: quando eu tiver quarenta e poucos anos, como eu vou ser sentimental!


E o Jazz?
Seria um ofício respeitável, produzir música para ursos sem outras intenções. Os ursos, ao contrário dos cronistas, não tem a menor vontade de afetar as estrelas com a sua existência, ou com os seus ruídos.


E a situação política atual do Brasil?
A velhinha de Taubaté é o último bastião da credulidade nacional. Ninguém acredita mais em nada nem em ninguém no país, mas a velhinha de Taubaté acredita. Se não fosse pela velhinha de Taubaté, o país já teria caído, não no abismo, mas na gandaia final sem disfarces.


Que saída você vê para a crise?
Existem muitas histórias sobre o analista de Bagé, mas não sei se todas são verdadeiras. Seus métodos são certamente pouco ortodoxos, embora ele mesmo se descreva como "freudiano barbaridade". E parece que dão certo, pois sua clientela aumenta. Foi ele que desenvolveu a terapia do joelhaço. Depois do joelhaço o paciente é levado, dobrado ao meio, para o divã coberto com um pelego.


O mercado está cheio de todos os tipos de leitura: livros que ensinam a viver mais, comer menos, amar mais... e, ainda, profissionais diversos não ligados à letras competindo com escritores profissionais. Em meio a toda essa oferta de leitura, por que há tantas pessoas que resistem a ler?
Na verdade, acho que as crianças deviam aprender a ler nos livros de Hengel e em longos tratados de metafísica. Só elas teriam visão adequada à densidade do texto, o gosto pela abstração e tempo disponível para lidar com o infinito. E, na velhice, com a sabedoria acumulada numa vida de leituras, com as letras ficando progressivamente maiores à medida que nossos olhos se cansavam, estaríamos então prontos para enfrentar o conceito básico de vovô vê a uva, e viva o vovô.


Que mensagem tu deixas para teus fiéis leitores que, assim como eu, são devotos da boa e bem humorada leitura?
Somos diferentes, tu e eu.
Tens forma e graça
E a sabedoria de só crescer
Até dar pé.
Eu não sei onde quero chegar
Só sirvo para uma coisa
- que não sei qual é!
És de outra pipa
E eu de um cripto.
Tu, lipa.
Eu, calipto.

( Entrevista encerrada.
Abraços e lágrimas... minhas.)

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