26 julho 2006

Incidente na casa do escritor

Guaraci Rodrigues


O escritor encontra-se em sua biblioteca em frente a sua máquina pensando na sua próxima crônica quando ouve uma voz.
- Pssiu, heii,- Luis Fernando!
LFV olha ao redor procurando quem lhe chamara.
- Aqui, olhe para cima.
Girando a cabeça seus olhos alcançaram as prateleiras recheadas de livros fixando–os em um canto onde quase displicentemente colocados estão os seus próprios livros, e certifica-se que era de lá que saía a voz.
Antes de se refazer da surpresa auditiva, a surpresa visual enche seu olhos quando nota que eles estão abertos e seus personagens descem pelas prateleiras.
- Que, quem são vocês? Gagueja, embora já soubesse a resposta.
- Um homem gordo de barba, e vestindo bombachas e de lenço no pescoço, lhe responde enquanto os demais ficaram em um canto da biblioteca.
- Deixa de sê fresco e senta logo na cadeira porque a indiada aí, ta afim de uma charla contigo e eu vô mediá que é pro causo dos ânimos esquentarem.
teleiras algumas pessoas que reconhece como sendo seus ; Mas eu, não compreendo como é que...!
- Fica a vontade, essa cadeira está confortável? Péra aí, Lindaura, traz o pelego e o mate!
Enquanto Lindaura saía o analista de Bagé, começou a falar.
- Pois olha, índio Velho, a peonada aí andou se reunindo pra discutir umas coisas a respeito do futuro, e coisa e tal, e chegamos a umas conclusões, que mexem com os nossos interesses, e aí resolvemos vir aqui afim de informar da nossa decisão.
-Decisão, sobre o quê? LFV perguntou atônito. - Fica a vontade
-Mas esse aí tá mais nervoso que cavalo redomão em dia de cancha reta, espera tchê, que eu chego lá!
-Buenas, como eu ia dizendo, a gente se reuniu e concluímos que a depois dos setenta, o parceiro aí não tem mais outros invernos pela frente, e deve se preparar pra tocar aquele teu instrumento esquisito lá na orquestra de São Pedro.
-Mas, eu estou bem, ainda ontem fiz um checape completo, respondeu LFV, e mesmo a expectativa de vida no Brasil, subiu muito.
- Até pode ser verdade, respondeu o Analista, mas a ciência ainda não descobriu um modo de evitar assassinato.
-Assas...quem iria querer me matar?
-Pelo visto, o vivente se considera o dono da charqueada, se lesse o que teus fãs escrevem tu não irias dormir direito, mas não te preocupe que nós estamos aqui para te ajudar.
-Eles querem me matar, mas por quê?
-Pois taí um causo estranho que me fez reler toda a obra do Freud para poder entender, eles querem te matar pra te homenagear.
-Mas o quê? Por quê? Como? Perguntou LFV desesperado.
-Bom, o quê eu já disse, o porquê também já desembuchei, agora o como vou deixar pro carioca te explicar melhor, disse o analista pegando a cuia da mão da Lindaura e fazendo um aceno para um homem magro e com um bigodinho fino se aproximar.
-Com um sorriso e um arquear de sobrancelhas, ele se apresentou;
-Meu nome é Mort, Ed Mort, sou detet...
-Sim, sim, estou sabendo disse LFV, sacudindo a cabeça impaciente.
-Claro! Você é o meu criador, não e? Respondeu Mort rispidamente, sabe onde moro, quem será a meu próximo cliente, em que fria vou me meter, sabe que não serei pago pelos meus serviços e que não vou ter dinheiro nem para um sanduíche, não é?
-Você sabe tudo Luis, sabe que mal me alimento e a única chance que tenho de comer alguma coisa é se um leitor deixar cair algum farelo de biscoito no livro.
Às vezes tenho vontade de matá-lo, mas me pergunto, se eu conseguir o intento, como seria denominado o crime? Autoricídio, escritoricídio, cronistacídio? Hein? Seu sabe tudo.
-Olha, disse LFV, não quis ofender, apenas disse que conheço meus personagens, só isto.
-Na verdade você me odeia, replicou Mort, quando você escreve sobre banquetes, regados a vinhos e comidas com nomes impronunciáveis em francês, nunca me convida, me deixa sempre passando fome, a minha barriga é o alter ego desta sua barriga gorda, é tudo que ela queria ser.
-Escute, eu não o coloco em banquetes porque detetives brasileiros são uns duros, e não seria plausível você ser convidado a freqüentar lugares refinados.
- Dora Vante invadiu a conversa, é como eu digo sempre, caríssimo! Agora é moda, todo mundo se acha no direito de reclamar alguma coisa, bons tempos eram aqueles em que havia um muro entre os que podem e não querem dar e os que querem e não podem ter, como dizia aquele ministro ou general, não lembro bem, fiz algumas plásticas no cérebro e confundo os nomes, tem algo a ver com o Figueirense, talvez fosse um dirigente ou jogador, sei lá! Mas o que importa é o que ele dizia: "Prefiro o cheiro de cavalos ao de gente!"
Não era um dirigente esportivo, nem ministro, quem disse isto foi o General Figueiredo, presidente/ditador em exercício, esclareceu Veríssimo.
As cobras se aproximaram e uma perguntou:
Porque você não fez um curso para aprender a desenhar com o Santiago, ou qualquer outro desenhista ao invés de fazer esses nossos traços ridículos?
Escutem disse LFV, eu até prometo que ouvirei as reclamações de vocês mais tarde, mas agora querem, por favor, me dizer quem está querendo me matar?
Nesse instante bateram à porta da biblioteca.
Luis está tudo bem aí, pareceu-me ter ouvido vozes, posso entrar?
Ninguém entra! Ninguém entra! Gritaram todos.
Não é nada, estava falando com os meus personagens, respondeu LFV.
Ahh! Riu Lúcia, então com eles você fala, espere só, seus fãs saberem disso, trouxe um sanduíche para você, está em cima da mesinha do corredor.
Assim que Lúcia afastou-se, LFV abriu a porta e trouxe a bandeja para dentro da biblioteca, colocando-a sobre a mesa.
Voltemos ao assunto, quem quer me matar e por quê?
O Analista respondeu se servindo de mais um mate.- Já foi explicado, ô bagual! Os teus fãs resolveram te homenagear na passada dos setenta escrevendo alguma coisa sobre a tua obra, e parece que eles acham que a coroação perfeita é uma coroa de flores com fitas roxas.
Isso é ridículo! Como vocês sabem disso?
Elementar meu caro Luís, disse Ed Mort com seu sorriso cínico, enquanto olhava para o sanduíche em cima da mesa, enquanto você dorme nós ficamos fuçando na internet, às vezes até arriscamos um escrito aqui e ali,- temos até um conto premiado- mas vai daí que lemos sobre o concurso e vimos que a intenção de manda-lo desta para melhor estava madura na cabeça dos fãs de todo o Brasil, do Oiapoque ao Chuí, passando por Brasília...
De Brasília, não acredito que sejam capazes de coisa dessas! Gritou a Velhinha de Taubaté, enquanto saía da frente de LFV que caminhava pela biblioteca, pensativo enquanto suas criações discutiam sobre o que fazer.
Podemos engolir os membros da comunidade de fãs deles. Falou a tia Jibóia.
Impossível, são mais de 110 mil, ponderou o patriarca da família Brasil.
Melhor fugir, disse Alves Cruz enfiando a cabeça entre os livros.
Sugiro Paris, é ótima nesta época do ano, disse Dora Vante.
Dudu o alarmista, entrou na sala gritando - Depressa, eles estão chegando!O que fez Flexa e Schirlei, correrem para a porta.
O Analista levantou e bateu no peito. Levo ele pra Bagé e quero vê quem é que tem culhão pra procurar por lá!
O que você acha Ed? Perguntou a velhinha ao detetive.
Humm!Acho que podia ter mais uma fatia de queijo no sanduba.disse Mort, saboreando o sanduíche que Lúcia trouxera, depois ainda lambendo os dedos falou:
Olha gente, acho que o problema não é nosso, quando este cara se for nós continuaremos, existindo, outras gerações curtirão nossas histórias por muitos anos, e apontando para LFV disse, ele só nos explora.
É isso mesmo gritaram as cobras, ele até nos matou, entretanto continuamos vivas, somos imortais.
LFV sentou-se com o rosto entre as mãos. -Não acredito que minhas próprias criações estão se voltando contra mim, e começou a soluçar.
Deixa de ser fresco, escritor que é homem não chora, a não ser alguns de livros de auto-ajuda, talvez! Disse o Analista
Mas isto doeu muito! Soluçou LFV
E o analista aproximando-se - Acha que dói mais que joelhaço?
Todos os personagens começaram a falar ao mesmo tempo reclamando das características que LFV havia posto em cada um.
Você nunca me deixou terminar a minha coleção de pássaros canoros, falou o rei Pundonor.
E o Moacir – E não publicou a minha versão do por que eu não morri com a Dalva.
E eu! Reclamou a Vilminha, precisava ser tão burra?
LFV levantou-se de um salto e gritou:- Chega! Vou verificar tudo sobre este concurso, se o que vocês disseram for verdade, basta registrar um BO na delegacia mais próxima, mas se vocês inventaram tudo isso só para reclamar da personalidade que criei para cada um. Vou alegar o estatuto do idoso para sumir com vocês, proibindo a publicação dos meus personagens para sempre.
Vocês não existem como seres vivos, foram criados por mim, são obras do meu cérebro, dependem de mim para tudo, e não é admissível se voltarem contra seu criador, e se algum não gostar, hoje mesmo eu o apago da minha mente.
Na biblioteca era possível ouvir o som do silencio, LFV continuava, não entendo vocês ao invés de me agradecerem por suas existências, me agridem.
Pois bem, a partir de agora só sobreviverão aqueles que me respeitarem, e me tratarem como o chefe, aquele que manda, também serão aceitas bajulações e até manifestações gritantes de puxasaquismo.
LFV cruzou os braços e encarou os personagens de suas histórias e perguntou:
-E então, o que vocês teriam a dizer?
Todos estavam sem saber o que fazer com as mãos e em silêncio absoluto, depois de alguns segundos, Ed Mort começou a cantar o hino do Internacional de Porto Alegre, seguido em coro pelos demais.
LFV sorriu, eles eram espertos!

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