Luís Augusto Marcelino da Silva
-Não sei, não sei. Só sei que ele chegou aqui há sete anos, esfarrapado, carregando uma mochila velha e fumando um charuto barato – disse o Alberi, dono do boteco.
-E ele sempre bebe assim?
-Sentado?
-Não, desculpa. Eu quis dizer, ele sempre bebe tanto assim?
-Só quando está com sede. Mas todo dia ele tem sede. Muita sede. Ele diz que é escritor. Que foi escritor, na verdade. E que hoje só escreve, mas não é mais escritor. Eu acho que ele tá gagá, porque fala isso quando está sóbrio.
-Mmmmmm....
O filho-da-puta do Ricardinho, meu editor, tinha dito que haveria possibilidades latejantes de eu perder o emprego se não embarcasse pra São Paulo pra fazer a cobertura do quebra-pau promovido pelo SCC - Septuagésimo Comando da Capital (as facções criminosas foram sofrendo meioses sucessivas e estavam quase se tornando incontáveis). Desde que me formei, em 2004, desejei ser repórter policial. Boa parte desse meu desejo vinha da grande influência que sofri das novelas policiais que eu devorava na juventude. E, apesar de ser tudo ficção, ou tudo aparentemente ficção, eram essas histórias que influenciavam o meu jeito de atuar como repórter. Mas, ao invés de penetrar no submundo das quadrilhas que tomaram conta de São Paulo, seguindo a orientação do filho-da-puta do meu editor, o Ricardinho Dedo-Ereto, tentei vasculhar o pequeno mundo daquele vagabundo gordo que, todos os dias, ficava datilografando numa velha Lettera 32 verde e tomando conhaque. Aliás, foi isso que me chamou a atenção quando entrei no bar do Alberi a primeira vez: um bêbado inoportuno pedindo para alguém pagar conhaque ao invés de cachaça. Deve ser um bêbado inoportuno refinado – concluí. Paguei.
-Foi tudo uma grande conspiração – ele disse.
-Sei.
-Você não acredita, não é?
-Que conspiração?
-Paga mais um.
-Não tenho mais dinheiro.
-Tem sim. Eu vi na sua carteira.
-O que?
Não teve jeito. Ele pediu outro conhaque para o Alberi. Tá certo, tá certo... não era O conhaque, era um Dreher, apenas um Dreher. Ainda assim achei um abuso, uma petulância.
-De que conspiração estava falando?... Senhor, senhor...
-Me chame de Gaúcho. Gaúcho, simplesmente.
-Então, Gaúcho...
-É, conspiração. GTIEL.
-GTIEL? O que ser GTIEL?
-Você não sabe de nada.
Passamos a nos encontrar todos os dias no bar do Alberi, sempre no mesmo horário. A cada dia aumentava minha curiosidade de saber o que o Gaúcho escrevia, mas nunca me atrevi a perguntar. E, além disso, eu queria descobrir o que era a tal ou o tal GTIEL. Aquele bêbado inoportuno passava a maior parte do tempo discorrendo sobre Shakespeare e Voltaire, era impressionante. Também não tive coragem de perguntar de onde vinha toda aquela erudição.
No intervalo desses nossos encontros diários, eu me entregava aos prazeres da carne no braço de Serlady. Não, não se trata de um erro de concordância. Serlady tinha apenas um braço. Um lindo braço, por sinal. Nos amávamos em seu quarto-cozinha sem acabamento, que ficava numa travessa de uma travessa de uma das travessas da avenida Sapopemba. Além de sexo, Serlady me servia umas cervejas genéricas, que me provocavam transes incontroláveis. Eu acordava, todas manhãs, sem ter certeza de que o Gaúcho existia. Sequer o bar do Alberi. Ou a própria Serlady.
-A Grande Trama Internacional para Extermínio da Literatura.
-O quê?
-Não vou repetir. Por que não anota o que eu falo? Você é jornalista ou sapateiro? Eles – o pessoal da GTIEL – estão tomando conta da literatura mundial. Começaram em 2005, mas há quem diga que foi em 2006. Pelo Orkut.
-Orkut?
-É, é. Você não sabe o que é Orkut?
-Sei sim, continua!
-Paga mais um?
-Alberi, manda mais um pro Gaúcho! Domecq.
-Domecq?
Sua história merece um Domecq.
Estávamos no terceiro dia de convivência quando ele explicou o significado da sigla GTIEL. E já adiantou que só terminaria de contar a história da grande conspiração no 7º dia. "Ué, não tem missa de 7º dia? Então tem fim de história no 7º dia também...".
Liguei pro Ricardinho. O filho-da-puta do Ricardinho, meu editor. Falei que tinha que ficar mais alguns dias. "Não, não foi uma exigência do SCC". É que eu tinha encontrado uma veia investigativa que prometia. "Veia investigativa?" – ele começou a gargalhar.
-Tá bom, tá bom. Só toma cuidado para não se afogar na corrente sangüínea da investigação – riu de novo, o filho-da-puta.
Ele desligou o telefone, não sem antes comentar que cortaria as diárias pela metade.
7º DIA:
As explicações das histórias deviam sempre estar na primeira página do relato, para poupar os leitores do aborrecimento de perder seu precioso tempo com pormenores que não servem pra nada. Acho que devia ser assim. Então por que não poupei os leitores? Não sei, não sei, não sei. Como vivia repetindo o Gaúcho, eu não sei de nada. Sei que pouparei os leitores do que aconteceu entre o 3º e o 7º dia. Pouparei você, leitor.
O Gaúcho já dissera que a conspiração começara em 2005 ou talvez em 2006. E que tudo iniciou no orkut. E que quem comandava a conspiração era a GTIEL. Nos dias seguintes, ele pouco acrescentou. Tinha aumentado as doses diárias de conhaque e, em contrapartida, a minha grana tinha diminuído. Chamei essa situação de "Paradoxo Filho-da-Puta", em homenagem ao Ricardinho Dedo-em-Haste, meu editor, responsável pela diminuição da minha verba. Mas no 7º dia estava ele lá, sóbrio, barbeado, sem datilografar uma página do seu livro interminável (o Alberi tinha me dito que havia uma porção de páginas datilografadas no quartinho dos fundos do boteco - local onde o escritor ou o outrora escritor dormia). Eu não disse antes - não sei porque não comentei - mas ele usava dois acessórios na cara: uns óculos fundo-de-garrafa e uma barba piolhenta. Assim, sem barba, e com os mesmos óculos na cara, facilmente o reconheci.
- Então é você, Verissimo?
- Gaúcho. Me chame de gaúcho.
- Sabe que li todos os seus livros? E que...
Ele me interrompeu bruscamente. Não queria saber o que eu tinha lido. Filho-da-puta! Eu sabia que ele tinha desaparecido em 2006, ninguém sabia ao certo por quê, e nem fazia idéia de onde ele estava. Isto me renderia um tremendo furo, com certeza! E eu, enfim, mandaria o Ricardinho Dedo-Rígido pra puta que o pariu!
- Então sumiste por causa da GTIEL? - perguntei. Eles te perseguiram, foi isso? Foi isso?
- Que GTIEL? Nunca ouvi falar de GTIEL. É a nova companhia telefônica?
- Como nunca ouviu falar? A grande. A trama. A internacional. O extermínio da literatura.
- Eu não sei de nada. Eu não sei de nada.
25 julho 2006
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