Guaraci Rodrigues
Meu nome é Mais, Ed Mais. É o que esta escrito na minha ficha policial, em cima da mesa.
A ficha estava na delegacia é claro, eu a roubei junto com a mesa. Roubar é minha profissão, meu cartão de visitas diz: Ladrão Profissional, Roubos em Geral. Isto me lembra que, estou precisando fazer um cartão novo porque este já está muito usado, já ultrapassei a marca das 1000 vezes em que eu o passei adiante e logo depois o peguei de volta, sempre acompanhado de uma carteira. Roubo qualquer coisa que esteja ao meu alcance, o que me limita um pouco, porque tenho 1,60 de altura; Tenho dificuldades para roubar girafas, por exemplo.
Mas eu compenso esta minha limitação, com a capacidade de dar sumiço em qualquer coisa, inclusive em mim mesmo quando necessário.
Em época de eleição sou muito procurado por políticos que insistem em me fazer candidato a alguma coisa. Eles acham que com minhas habilidades, posso contribuir muito para o andamento da pauta no Congresso, sumindo com alguns projetos. Sei que se entrasse para a política, teria além de imunidade parlamentar, uma série de outras vantagens criadas para desviar grana. Conheço Brasília, sempre vou me esconder lá nos fins de semanas prolongados, e aproveitar o silêncio do Congresso para meditar, mas tenho meus critérios, trabalho sozinho, nunca gostei de corporações e não quero ser confundido com políticos, tenho um nome a zelar.
Estava no meu escond, o erijo foi sublocado por um chinês falsificador de quadros, que usa um ateliê de faixas e cartazes como fachada. Ele vendeu um original de natureza morta de Cezane 17 vezes, com as frutas parecendo frutas mesmo, foi denunciado por intoxicar pessoas por ingestão de frutas com pesticidas e teve de procurar outro pintor para falsificar, passava o dia sentado em frente a uma tela com os olhos fechados, ou abertos, como é que eu poderia saber!
Mas eu dizia que, estava no meu escond, esperando que o telefone tocasse; o que acontece de hora em hora, pois na verdade é um relógio despertador em forma de telefone, que roubei em uma loja de artigos importados, quando ela entrou... E saiu ao mesmo tempo, pois era tão grande que ao terminar de entrar no escond, já estava com metade do corpo no erijo.
-Mas! Exclamou!
-Mais, Ed Mais, corrigi sorrindo com o canto esquerdo da boca, já que o direito não obedecia desde que inchou com um tapa do Tião, um policial que me prendeu quando eu estava tentando roubar a cueca de um deputado, e me dei mal, porque ele já havia trocado a cueca com um assessor. A lembrança de que poderia ter ficado rico, se tivesse acordado mais cedo, causou-me um rápido devaneio, o que fez o canto da boca voltar a posição anterior, entretanto continuei.
-... Mas para você até a palavra, superlativo, fica menor, retruquei ainda dentro do timing e antes de sentir a mão dela atingindo minha cabeça me fazendo voar do escond, e invadindo a porta do erijo.
-Mas, repetiu, é tu "memo" que eu "tava" procurando, seu pilantra! Disse avançando sobre mim com os olhos vidrados.
Pelo uso do tratamento respeitoso "seu", achei que ela errara de pessoa, mas, o pilantra dito logo após, fez com que lembrasse do meu nome intermediário, e soube que ela batera no homem certo.
Era a mãe da Dalva, uma namorada que eu tive tempos atrás, que encontrei no porta-malas de um Maverick, 79 que eu roubara em 96, e não levei muito tempo para perceber que ela estava no lugar adequado porque, ela era uma "mala" mesmo. Reconheci a mãe dela por uma foto 3x4 que encontrei na bolsa da Dalva. Na foto só dava para ver um dos buracos do nariz, mas ao vê-la bufando na minha direção, reconheci o bruto.
-Ordinário! Dizia a mãe dela enquanto me agarrava pelo colarinho e nem notou que eu estava de camisa sem colarinho, como é que tu "dexa" minha filha com cinco filhos que nem conhecem o pai e nunca mais...
Tenho dúvidas sobre o que ela falou depois do nunca mais, porque ela bateu com as duas mãos em forma de concha nos meus ouvidos, com tal força que minha cabeça parecia ter sido tirada de uma pintura de um pintor famoso de quem eu não lembrava o nome, depois ela me jogou no chão e sentou em cima da mim, para fazer o resto do corpo ficar proporcional.
O chinês, que parecia nem ter notado a invasão do erijo e permanecia quieto procurando inspiração, olhou para mim, "ocidentalizando" os olhos, e me lembrou o nome do pintor que eu esquecera dizendo: Ahh! Modigliani, né?! E com uma cara de satisfação, pegou os pincéis.
A mãe da Dalva, retirara um maço de fotos de seus netos da bolsa, cujo mais velho tinha cinco anos e passou a esfregar uma a uma no meu nariz, fazendo o dito cujo retroceder um centímetro de cada vez, o que fez o chinês franzir a testa e ficar em dúvida.
- Picasso melhor, né?! Disse ele, sorrindo.
Tentei ponderar para a mãe da Dalva que tinha abandonado sua filha a mais de 10 anos, e que os filhos não poderiam ser meus, mas a matemática não era a matéria preferida dela.
Depois do chinês, ter visto passar pela minha cara todas as escolas de arte a partir de pinturas rupestres, e escolher Salvador Dalí como inspiração para seus novos quadros, ela finalmente foi embora dizendo que voltaria com meus filhos e com a Dalva, que estava grávida do meu sexto herdeiro, para que eu conhecesse as crianças.
Depois de levar algum tempo juntando todas as partes do meu corpo que estavam espalhadas, e conseguir me arrastar de volta para o escond, resolvi fazer as malas e sair à procura de outro lugar para morar, até meu caçula completar a maioridade.
Estava esquecendo de dizer que divido o escond, com um ratão albino, que roubei do escri de um detetive em uma galeria de Copacabana, ao lado da pastelaria "To Avisando!", que usa o tório. O tal detetive, tinha sido contratado para me achar, então me escondi no lugar em que certamente não me procuraria, no escri dele. Foi lá que fiz amizade com o rato, e trouxe-o comigo, para o escond.
Junto vieram 117 baratas pensando que iam melhorar de vida, mas só gosto do rato, que trato como a um filho; às vezes ele desaparece, mas sempre retorna. Quando ele some não consigo dormir direito, entro em crise e tenho fortes dores musculares, que só passam quando ele volta por isso eu o chamo de Voltaren, sou assim mesmo, tenho sensibilidade farmacêutica.
Mais, Ed Mais, na plaqueta que roubei no escri do detetive, estava escrito Ed Mort, mandei o chinês escrever meu nome aproveitando o Ed e trocar o ort por ais, para aproveitar tinta, mas ele colocou tudo depois do Mort, e ficou Mortais, foi bom porque ao verem a plaqueta, as baratas que nos seguiram desde Copacabana, pensaram que era referência a elas e fugiram apavoradas, tomando o caminho de Copacabana.
Recusei o convite do chinês para servir de modelo ao novo quadro que iria pintar, vesti meu único terno, coloquei o Voltaren no bolsinho do casaco, porque ele gosta de viajar na primeira classe e decidi levar apenas os meus pertences, o que significa que tirando o terno, deixei tudo, já que o resto pertencia aos outros. A rigor, o terno também fora surrupiado de uma caixa para os pobres do Exército de Salvação, a calça e casaco eram peças distintas, mas parece que foram feitos para mim, caíram como luvas, a calça igual a uma daquelas feitas para dirigir, sem os dedos, e o casaco igual às usadas para retirar bolos do forno.
Mais, Ed Mais, ou Mortais como está na plaqueta. No momento estou escondido entre as regras de uma comunidade da Internet, o lugar é limpo e silencioso e como a possibilidade de alguém ler as regras antes de entrar é remota, posso ficar aqui por um bom tempo e começar a escrever minhas memórias.
Como não posso usar o teclado por causa do barulho, escrevo com uma caneta Bic, escrita fina, - minhas memórias merecem o melhor -. O problema é que não há nada para roubar aqui, e quando estou em uma situação assim fico nervoso, eu preciso livrar alguma coisa de alguém para poder existir, roubar sempre foi o meu lema, minha filosofia de vida!
Mais, Ed Mais! Não resisti, roubei a caneta.
25 julho 2006
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