26 julho 2006

Cabeçaço


Liliane Rocha Varinot

Gisela Pinheiro Lima

Alexânia Ripoll

Alysson Machado Costa

Jair Francelino Ferreira




Porto Alegre comemorou os 150 anos do nascimento de Freud, mas o que a capital gaúcha nunca mais parou de comentar foi o depoimento de um analista, que veio lá de Bagé apresentar um caso, temendo perder clientes para o Lacaniano de Passo Fundo.

O analista sentou, chupou fundo a bomba do chimarrão e lascou de saída:

- Esse negócio de congresso é pra fresco e china sem macho. Mas meu consultório tava mais fechado que baú de solteirona, e a Lindaura tinha ameaçado não deitar mais no pelego se eu atrasasse o salário dela mais um mês. O causo que trago aqui é de um bagual que mudou pra sempre a minha terapia do joelhaço!

Sensação na audiência do analista. Como ele, mais ortodoxo que embalagem de maisena, podia ter mudado a sua afamada terapia????


- Ele entrou de cabeça baixa. Não deixei entrar com a bola, nem com a Lindaura, que vinha babando atrás dele. Coloquei as duas pra fora. Ele foi dizendo:

- Bonjour...

-“Bonjur” coisa nenhuma que bico é coisa de veado, ou de francês. Se abanque e tome um mate.

- Mas je suis francês.

Na dúvida, não insisti pra ele deitar no pelego. Ainda fazendo bico, ele reclamou que faltavam dez minutos. Dez minutos!

- Tá me estranhando? Eu não sou o Lacaniano de Passo Fundo! Minha sessão dura 50, tchê.
- Não aqui. Lá. Entende? Lá!
- Desembucha, homem! Lá onde?

Quando o vivente faz umas associações esquisitas a gente tem que acompanhar. Porque então ele perguntou se eu não assistia futebol.

- Quem faz pergunta aqui sou eu.
- Dez minutos para a glória. A imortalidade. A estátua nos Champs-Elysées.
- Sei.
- Mas ele soube exactement o que me dizer.
- Ele?
- Aquela frase que o italiano disse foi minha perdition.
- Frase?

O vivente nao agüentou que eu tava mais por fora que cotovelo de caminhoneiro. Furioso, se levantou e deu uma cabeçada no meu peito. Oigalê! Dizem que ele não é francês, mas viado também não é não! Botou meu joelhaço na alpargata.

Nem cobrei a sessão. Convidei pra ser meu sócio, mas o sujeito só cedeu os direitos autorais do cabeçaço e foi embora chutando a bola, depois de dar um beijo na Lindaura, que ficou lá, salivando. Quando ele já ia passando pela porta, chamei:

- Tu não vai me contar a frase que o italiano disse??

E ele revelou. Em primeira mão. Mas até em Bagé a gente tem ética. A audiência tem alguma outra pergunta?


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